Chegou em absoluto silêncio e em silêncio permaneceu por alguns momentos. Seus lábios mexiam fervorosamente sem a emissão de som e seus olhos, ora miravam o teto das dependências do penhor, ora o piso.
Ela estava rezando em minha frente.
Após esses breves momentos de meditação puxou de sua sacola da Rede Vivo uma imagem da Nossa Senhora Medianeira, deu um beijo e colocou em cima do guichê.
– Ela é minha protetora. – completou, sentou-se e sorriu.
Era uma tarde muito fria de um inverno que recém estava começando. Essa senhora, meio judiada pelo tempo e pela vida, estava extremamente agasalhada. Por cima de todas as blusas de lã uma enorme japona.
– Eu só trouxe o... – levantou-se.
Tentava, incessantemente, colocar a mão por sobre as golas das blusas. Imaginei que ela queria buscar alguma coisa que estava seguramente guardada no sutiã. Era uma seção de contorcionismo no penhor na tentativa de acessar o documento tão bem-guardado.
– Eu só trouxe o... – repetiu.
E cada vez mais se abraçava num esforço desesperado de colocar a mão por dentro das roupas. Uma vez com a mão esquerda depois com a mão direita. De frente para mim e de costas para uma platéia de umas dez pessoas. E a Santa entre nós abençoava o espetáculo.
– Eu só trouxe o...
– CPF – eu disse já meio ansioso com a indefinição daquela cena.
Então, ela começou a desabotoar a japona e mais alguns casaquinhos de lã. Tirou um rosário e colocou em cima do guichê. No momento seguinte um saquinho com umas moedas e cédulas de reais. Um chaveirinho do Riograndense Futebol Clube
– Periquito. Minha paixão! – falou mostrando para mim e para todos os presentes no penhor.
Por fim, retirou um lenço com documentos de identidade e o cartão de benéfico.
– Eu só trouxe a...
– Renovação. – falei disfarçando minha ansiedade.
– Renovação. Como é que o senhor adivinhou? Tá aqui...
Apresentou-me uma renovação que deveria ter feito escala na Bósnia. A data eu consegui ler: janeiro de 2005 e com um número antigo do contrato. Até bateu uma saudade do velho programa Aurus. Por sorte alguém havia escrito o CPF no verso do que outrora tinha sido uma renovação.
– Eu quero resgatar amanhã. Veja quanto dá e coloque num papelzinho. Aí da Caixa.
Fiz como o solicitado, mas ela não se convenceu.
– O senhor poderia rubricar aqui. É que a pessoa para quem o vou pedir dinheiro emprestado precisa ter certeza do valor.
– Mas eu não posso rubricar um papelzinho...
– Não tem problema.
Colocou o papelzinho e a renovação e todos os demais apetrechos no mesmo lugar de antes e começou a se abotoar. Segundo ato do espetáculo de contorcionismo. Misturou algumas contas a pagar com outros papeis e a carteira de identidade. Ainda balbuciou umas Ave-Marias. Por fim, mostrou-me uma foto de uma sobrinha que morava em Brasília e que namorava um senador.
– Pareça pai da menina...
Pegou a Santa de cima do guichê e pediu para que eu lesse o que estava escrito no verso da imagem.
Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador! Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine, amém!!
– Lembre-se sempre reze antes de dormir.
Fez o sinal da cruz virou-se levantou as mãos para o céu, ou para o teto, sei lá, e se foi meio desajeitada. Alguma coisa a incomodava. Fiquei com a impressão que era o volumoso sutiã.
Ela estava rezando em minha frente.
Após esses breves momentos de meditação puxou de sua sacola da Rede Vivo uma imagem da Nossa Senhora Medianeira, deu um beijo e colocou em cima do guichê.
– Ela é minha protetora. – completou, sentou-se e sorriu.
Era uma tarde muito fria de um inverno que recém estava começando. Essa senhora, meio judiada pelo tempo e pela vida, estava extremamente agasalhada. Por cima de todas as blusas de lã uma enorme japona.
– Eu só trouxe o... – levantou-se.
Tentava, incessantemente, colocar a mão por sobre as golas das blusas. Imaginei que ela queria buscar alguma coisa que estava seguramente guardada no sutiã. Era uma seção de contorcionismo no penhor na tentativa de acessar o documento tão bem-guardado.
– Eu só trouxe o... – repetiu.
E cada vez mais se abraçava num esforço desesperado de colocar a mão por dentro das roupas. Uma vez com a mão esquerda depois com a mão direita. De frente para mim e de costas para uma platéia de umas dez pessoas. E a Santa entre nós abençoava o espetáculo.
– Eu só trouxe o...
– CPF – eu disse já meio ansioso com a indefinição daquela cena.
Então, ela começou a desabotoar a japona e mais alguns casaquinhos de lã. Tirou um rosário e colocou em cima do guichê. No momento seguinte um saquinho com umas moedas e cédulas de reais. Um chaveirinho do Riograndense Futebol Clube
– Periquito. Minha paixão! – falou mostrando para mim e para todos os presentes no penhor.
Por fim, retirou um lenço com documentos de identidade e o cartão de benéfico.
– Eu só trouxe a...
– Renovação. – falei disfarçando minha ansiedade.
– Renovação. Como é que o senhor adivinhou? Tá aqui...
Apresentou-me uma renovação que deveria ter feito escala na Bósnia. A data eu consegui ler: janeiro de 2005 e com um número antigo do contrato. Até bateu uma saudade do velho programa Aurus. Por sorte alguém havia escrito o CPF no verso do que outrora tinha sido uma renovação.
– Eu quero resgatar amanhã. Veja quanto dá e coloque num papelzinho. Aí da Caixa.
Fiz como o solicitado, mas ela não se convenceu.
– O senhor poderia rubricar aqui. É que a pessoa para quem o vou pedir dinheiro emprestado precisa ter certeza do valor.
– Mas eu não posso rubricar um papelzinho...
– Não tem problema.
Colocou o papelzinho e a renovação e todos os demais apetrechos no mesmo lugar de antes e começou a se abotoar. Segundo ato do espetáculo de contorcionismo. Misturou algumas contas a pagar com outros papeis e a carteira de identidade. Ainda balbuciou umas Ave-Marias. Por fim, mostrou-me uma foto de uma sobrinha que morava em Brasília e que namorava um senador.
– Pareça pai da menina...
Pegou a Santa de cima do guichê e pediu para que eu lesse o que estava escrito no verso da imagem.
Santo anjo do senhor, meu zeloso guardador! Se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine, amém!!
– Lembre-se sempre reze antes de dormir.
Fez o sinal da cruz virou-se levantou as mãos para o céu, ou para o teto, sei lá, e se foi meio desajeitada. Alguma coisa a incomodava. Fiquei com a impressão que era o volumoso sutiã.
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