sábado, 16 de abril de 2011

O penhor do maragato [*]

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Cheguei no hall da agência faltando pouco mais de quinze minutos para a abertura do expediente.
A fila dava voltas no ambiente do autoatendimento. O primeiro cliente, que estava próximo da porta giratória, chamou atenção por ser um gaúcho pilchado a capricho. Todo na estica – como diria uma saudosa tia de Rio Pardo –, devidamente paramentado para o desfile farroupilha de 20 de setembro, ou para um baile no Sentinela da Querência. E o mais estranho é que estava com os arreios a tiracolo. Será que o tordilho ficou na frente da agência?
Imaginei, sem maiores preocupações, que o bombachudo da fila não seria cliente potencial para fazer penhor. O que um gaúcho com vistoso lenço vermelho, bigode de causar inveja ao Guri de Uruguaiana e longas melenas traria para colocar no penhor?
Em outros tempos eu teria observado uma aliança, anel ou uma corrente de relógio de bolso, mas nada estava mais evidente que os tais arreios a tiracolo.
– O maragato não vai para o penhor. “Minha casa, minha vida” é o “destino do peão” – afirmei, cantarolando a música do Noel Guarani.
Dois minutos após abertura da agência eu mordi a língua. O maragato dos quatro costados havia entrado no recinto do penhor. O fulano estava transformado em chapéu, bigode e lenço. E os arreios de arrasto por uma das mãos.
Quando apertei o botão das senhas eu me lembrei de uns versos do “Bochincho” de Jaime Caetano Braum “e foi ele que se veio”. Largou em cima do guichê um buçal, um par estribos e um par de esporas. Todos os apetrechos de prata 600.
Eu fiquei pensando no que iria dizer para o gaudério. Quando comecei a falar sobre os penhores de prataria, imaginando o guasca adentrando, batendo esporas, na agência Sé em São Paulo, o vivente puxou da cintura uma enorme faca. Uma adaga de prata que colocou os vigilantes de prontidão. Aquilo foi um alvoroço.
– Foi do meu bisavô. O velho peleou ao lado de Antonio de Souza Neto na revolução Farroupilha.
Senti um arrepio na espinha. Num primeiro instante levei um baita susto, achando que fosse um assalto. Mas percebi que a adaga também era prateada e me acalmei. Mas o coração bateu no compasso de um chacarera.
Depois das devidas explicações sobre os penhores de prata o vivente recolheu aquela tralha toda. Botou, novamente, a adaga na cintura e ficou se lamentando do pouco valor do metal. Afinal, era uma sesquicentenária adaga Farroupilha. Então, colocou sobre o guichê um par de alianças, uma corrente para relógio e um patacão com a efígie de Dom Pedro II – uma raridade – segundo o bigodudo dono. Sorriu com o canto da boca ao perceber meu espanto com antiga moeda.
O teste das alianças deu ouro baixo e a corrente ouro dezoito. O gaúcho observava atentamente o meu manejo com os ácidos.
– O que é a ciência... – falou a esmo e não se conteve. – O senhor testa dente de ouro?
– Claro, me alcance que a gente já fica sabendo se é ouro.
Abriu um sorriso de orelha a orelha e os caninos reluziram o metal nobre em minha frente. Com o indicador apontou para a própria boca.
– O senhor viu o que os ácidos fizeram com o ouro das alianças. Imagina o que fariam com sua língua?
Como por encanto o sorriso estancou. E franziu as sobrancelhas.
– Deixa quieto – falou mostrando desinteresse.
Fechado o acordo para fazer o contrato, solicitei a documentação. Percebi, logo, que o gaúcho era conterrâneo de Santiago do Boqueirão – terra dos poetas – e tocaio de Caio Fernando Abreu.
– Muito bem seu...
– Caio Fernando Saraiva – e repetiu enfaticamente ajeitando o bigode com as mãos. – Saraiva. Saraiva.
Resolvi provocar o vivente. E fiz uma pergunta sobre o passado de Caio Fernando Abreu.
– Caio Fernando Abreu foi patrão de um CTG em Santiago na década de 70? O Caio era um bombachudo mais grosso que dedo destroncado. E era um baita domador. Não havia bagual, em toda a região das Missões, que derrubasse o rapazola. Só tinha um defeito, era Chimango. Não era?
– Deixa quieto. Deixa quieto. – falou, sorrindo, para não se comprometer.
Então, percebi que toda vez que não queria falar ou emitir opinião dizia “deixa quieto”. Para não cair no politicamente incorreto resolvi também “deixar quieto”.
Entreguei o dinheiro para o Caio Fernando Saraiva que colocou tudo na guaiaca e se foi rumo ao elevador, mas sem antes dar um tropicão no totem do penhor logo adiante. Sorriu amarelo e seguiu.
Então me dei por conta em saber como é que o taura entrou pela porta detectora de metais com aquela adaga de prata. E eu mesmo respondi. – Deixa quieto.



[*] Crônica classificada no 18 concurso Histótria de Trabalho 2011.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A velhinha e o americano

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Alguns clientes são habitués no penhor. Aqueles que aparecem em dias de chuva, têm os contratos mais antigos e são os mais extrovertidos. Mas as velhinhas viúvas, simpáticas, sorridentes e bem-humoradas estão no topo da preferência. E foi uma delas que sentou em minha frente. E não era dia de temporal.
O período era de um inverno de renguear cusco, meio de mês e pouco movimento na agência. Eu não devia escrever que havia tomado um cálice de vinho tinto no almoço, mas o fato é que eu havia tomado um cálice de vinho tinto no almoço. E por conta desse cálice de vinho estava acometido de uma lombeira.
Ao cumprimentar a velhinha com um sonolento “boa tarde” ofertei um longo e relaxante bocejo. Não teve dúvidas e a velhinha bocejou de volta. Diante do bocejo da velhinha outro bocejo meu.
– Para de bocejar! Senão eu também não paro – afirmou sorrindo. – Estamos como dois boca abertas.
E os bocejos se intensificaram. Eu bocejava daqui a velhinha bocejava do outro lado do balcão. E sorria – bocejando – pedindo que eu parasse de bocejar. Chegou a tal ponto que nem olhava mais para mim. Me entregou os documentos olhando para o guichê da colega ao lado. Eu chorava de rir do jeito da velhota. Entreguei a renovação e um bocejo e a velhinha saiu rapidamente do guichê. Bueno, como estou falando em bocejo nessa crônica é evidente que estou bocejando nesse momento... e me lembrando da velhota.
A velhinha saiu resmungando alguma coisa entre um bocejo e outro, quando um cidadão de uns dois metros de altura me entrega um papel e permanece em pé num silêncio absoluto. Verifico o documento e vejo que é um cheque viagem de U$ 500,00. Sem saber o que fazer com aquilo, pedi que aguardasse alguns minutinhos que iria verificar com o gerente. Imaginei que ele estava enganado, a coisa não era com a Caixa, mas, enfim, não custa buscar informação. Voltei e expliquei que deveria se dirigir ao Banco do Brasil para fazer a troca. E falei que a Caixa não tinha esse tipo de serviço e que ele estava no penhor. Também expliquei o que era penhor e blábláblá.
– I do not speak português – falou essa única frase para espanto meu depois de ter gasto todo o verbo em explicações.
Pensei em responder “Yo también no hablo português”, mas seria maldade com o americano. Não fazia a menor idéia de como encaminhar o gringo para uma agência do Banco do Brasil, quando a velhinha que bocejava retorna.
– Eu falo inglês. Fui professora de língua estrangeira no Manoel Ribas. Fui professora do atual prefeito – falou cheia de importância.
Sorri satisfeito, só no penhor para se encontrarem um americano, que não fala português, e uma ex-professora de inglês do velho Maneco.
E foram os dois em altos papos – no idioma de Obama – até o elevador. Ela se volta e me olha, boceja, sorri e some elevador adentro.
Lógico, eu também bocejei e percebi que não havia autenticado a via da velhinha.

sábado, 27 de novembro de 2010

O namorado da viúva do promotor

A maioria das pessoas contratantes de empréstimo sob penhor de joias é formada de mulheres. E a maioria das mulheres são professoras. Mas isso é, apenas, um dado estatístico, pois homens também fazem penhor.
Assim, sentou-se em minha frente um senhor alto e com volumosos cabelos brancos. Muito conversador. Ao entregar-me a cédula de identidade percebi, de pronto, a data de nascimento: junho de 1922.
Enquanto refletia sobre a vida e o tempo o senhor de descendência germânica sofria para retirar a aliança e o anel do dedo. Naquele meio tempo em que eu estava no “La pucha que o tempo passou ligeiro” e fazendo contas futuras o cidadão continuava com grande e insuficiente esforço para retirar a aliança e o anel do dedo. Fez uma pausa – já estava com o rosto vermelho – e contou que, certa feita, quando trabalhava numa joalheria, na esquina da Floriano com a Bozzano, um funcionário inventou de botar uma aliança no pinto. Uma senhora da alta sociedade obesa da cidade havia encomendado e fazia mais de semana e não viera buscar. Então, de sacanagem, o colega botou a joia no pinto. Só que não conseguia tirar a aliança do seu membro e por acaso e coincidência a senhora adentra na joalheria. O guri suava por todos os poros e a aliança lá.
– A madama aguardando no balcão e o guri com o anel da velha no pinto. E não conseguia tirar. Sobrou para mim, tive que cortar. O anel, o anel. Bem entendido? – e soltou uma gostosa gargalhada.
– E a senhora da sociedade burguesa não ficou enfurecida com a demora?
– Da sociedade obesa – corrigiu e continuou. – Sem problemas a madama – ele falava madama – veio buscar no outro dia. Ontem, assistindo o jornal e vendo aquela confusão do trafico de drogas no Complexo do Alemão. Lembrei que eu fui um alemão complexado por conta do corte do anel no pinto do Zé. Até hoje eu sonho com o pinto do Zé. Tu já cortou o anel no pinto de alguém?
– Nunca!
– Experimente e vai acabar no psicanalista.
Chamava-se Schneider um alemão bem-humorado. Se é que se pode achar um alemão bem-humorado. Mas ele estava ali em minha frente. De repente deu um sorrisinho maroto. Levantou o braço. Pensei em ouvir em seguida o “Hai Hitler”, mas o que vi foi o seu Schneider retirar tranquilamente com a mão direita o anel e a aliança.
– Não conhecia essa hein?
– Essa simpatia de levantar o braço? – respondi perguntando.
Antes de ser taxado de idiota pensei “claro o sangue desce e o dedo fica mais fino”.
– Essa simpatia quem me ensinou foi um colega, o mesmo da aliança no pinto...
– É uma coisa impressionante... – comentei.
Entregou-me as joias dizendo que o anel estava no dedo dele há mais de 40 anos. Fiz o cálculo e a avaliação ficou em pouco mais de duzentos reais. Se no mundo existe um idoso, alemão, humorado e conversador, essa pessoa, mais dia, menos dia, faria um penhor comigo. Isso é lógica! A lógica do penhor é claro.
O senhor Schneider divagou pela sua longa existência enquanto avaliava as joias.
– O senhor está com...
– 88 anos bem vividos. Caminho, vou a baile, danço e namoro bastante – e soltou outra estrondosa gargalhada.
Uma velhinha que estava logo atrás fez uma cara de quem não gostou do alemão. Estava escrito em sua testa: velho devasso.
Mas o seu Schneider – que me lembrou um antigo goleiro do Internacional – continuou com seu relato. Falou que tinha uma namorada 30 anos mais nova. “Pronto, é agora” pensei.
– Ela que me ensinou a dançar tango e chamamé. É viúva de um promotor e cheia da grana. Mas hoje estou fazendo um penhor para comprar remédios. Sabe como é né. Vou comprar uns gremistinhas...
– Gremistinhas? – perguntei.
– Aqueles azuizinhos. Tenho encontro hoje com a viúva do promotor.
A velha atrás quase subiu pelas paredes. Mas percebi nos olhos dela um certo interesse pelo alemão. Só não entendi o porquê do penhor se a viúva do promotor era cheia da grana. Mas o fato é que seu Schneider botou a grana no bolso e foi direto para a Panvel.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A bela do sapato


Nesses anos todos de banca nas avaliações de joias, observei algumas coincidências. Uma delas é com a senha de chamada para atendimento. Ao chamar a senha 24 ou 69 podia ter certeza, a história rendia.
Novamente aquela pasmaceira de meio de mês. E uma colega, recém-formada no curso de avaliadora, fazia o estágio comigo. Eu, o ilustre orientador na agência.
Quando ela saiu do elevador o penhor e a habitação – que estão no mesmo andar – pararam. Literalmente o tempo parou. Todos os olhos se voltaram para a beldade. Eu não via mais nada, apenas, um par de longas e esbeltas pernas bronzeadas se aproximando do guichê. Ela não caminhava, desfilava pelo recinto. Usava uma mini-blusa vermelha e uma minúscula saia branca. Tinha um longo cabelo preto com uma tiara amarela. O cabelo liso, como uma cascata negra, jorrava pelas costas até a cintura. Meia dúzia de pulseirinhas douradas e brincos em forma de coração. Usava um sapato preto exageradamente alto e uma bolsa também vermelha. Isso tudo foi observado pela Michelli – a avaliadora estagiária – eu só tinha olhos para as suas bem torneadas pernas.
– Tenho que pegar a senha? – perguntou com voz melosa e delicadamente apontando para a maquineta.
– Não precisa – falou Michelli.
– Precisa – falei, imaginando qual o n úmero da senha.
É claro que ela pegou a senha 69 e a história recém estava começando.
Antes de dizer um oi, boa tarde ou qualquer expressão que identificasse que aquele monumento sorria e queria fazer penhor, tocou o celular.
– Não! Não é esse o número, foi engano.
Não sei o que o interlocutor da beldade falou do outro lado, mas foi um recital de: muito delicado de sua parte. Muito gentil. Ahan. Legal. Pode sim. Tudo bem. Bah! O bah ela falou quatro vezes. E um amontoado de palavras gentis. E a conversa dos dois desconhecidos se prolongou por mais de dez minutos. Enfim, desligou o celular e comentou apenas.
– Vá que seja fazendeiro...
Com a maior sem-cerimônia, a moçoila colocou a perna em cima do guichê, com aquele baita sapato preto com uma enorme fivela dourada que, como os brincos, tinha o formato de coração. Não esqueçamos que ela estava de minissaia e o penhor em estado de graça, todos os sete avaliadores.
– Quero penhorar esse sapato porque a fivela é de ouro.
– Não existe sapato com fivela de ouro – respondi de pronto.
– Mas o moço da casa Eny disse que era folheado a ouro 18 quilates, logo, é de ouro. Então quero avaliar.
– Mas...
– Quero testar – falou a estagiária.
Estava ávida por pingar uma gotinha de ácido na fivela do sapato da moça. Não sei se para testar seus conhecimentos ou por vingança. Mas o fato é que testamos a fivela.
– Então vamos testar a fivela para ver se realmente é ouro. A senhora...
– Senhorita.
– ...Senhorita pode tirar o sapato.
O movimento que ela fez para tirar o pé de cima do guichê foi algo próximo da suprema corte do paraíso. O penhor era um silêncio só. Ninguém renovava. Ninguém avaliava. Ninguém resgatava. E todos suspiravam com os olhos nas fivelas do sapato da moça. Por alguns momentos teve dificuldade para desafivelar o sapato. Quando me prontifiquei para ajudar ela falou a palavra que foi um balde de água fria em minha ansiedade e taquicardia.
– Consegui!!!
Incrivelmente o sapato tinha um aroma de erva doce. Michelli fez o teste e concluiu o que todo o universo e os mais de mil avaliadores concluiriam.
– Não é ouro!
A moça fez um beicinho que eu achei a coisa mais lindinha do mundo. Devolvemos o sapato, mas sem antes perguntar de onde era aquele aroma de erva doce. Respondeu que havia passado alcoolgel nos pés. Sabia e tinha visto a entrevista do ministro da saúde recomendar o uso do álcool nas mãos, mas por segurança, passava também nos pés. E eu fiquei imaginando o porquê.
– Tchau, doutorzinha – e saiu sem dar mínima bola para mim.
Encerrou o desfile na porta do elevador e o penhor voltou a sua normalidade. Então percebi que um gaúcho todo paramentado com estribos e arreios de prata aguardava atendimento. E a senha não era 24 nem 69. Mas a estampa do vivente não deixava dúvidas. Afinal, era aquela pasmaceira de meio de mês.

domingo, 8 de junho de 2008

As mulheres de Nádio *

Quando acionei a senha 69, ela veio toda espalhafatosa em direção ao guichê.
Uma morena bronzeada, cabelos extremamente curtos e olhos verdes. Uma pintinha ao lado da boca, igual a da Débora Secco, era, apenas, um detalhe. Estava ornamentada com meia dúzia de pulseiras em cada braço. Bijuterias de qualidade duvidosa.
Sem deixar de falar ao celular, sentou-se em minha frente. Parecia bem exaltada e a frase que ouvi não deixava dúvidas.
– Tu tem que dar um pontapé no traseiro daquela vagabunda!
Sem desligar o aparelho, me alcançou um contrato com umas quinze renovações presas por um clips e que estava vencido desde maio de 2007. Disfarçando um sorriso, pediu para ver quanto era a dívida.
Até então eu não tinha falado e acho que não iria, pois a morena continuava atenta ao celular e os ânimos, ainda, estavam exacerbados.
– Aquela ordinária vai torrar todo o teu dinheiro, pode crer. Tu não vai ficar com um mísero centavo no bolso.
Olhou para mim e perguntou quanto dera a cálculo.
– R$ 999,00. – respondi.
– Vou renovar, veja quanto dá para trinta dias.
Como o contrato estava em nome de outra pessoa, perguntei quem era Nádio. A morena respondeu, se esforçando para ser simpática, que era de um conhecido. O amigo estava doente e não poderia vir pessoalmente.
– A senhora poderá fazer a quitação, mas para retirar as jóias terá que ter a procuração do Nádio ou a autorização no contrato. Ok? – informei os procedimentos em caso de resgate.
Ela, ainda mantendo a ligação, franziu as sobrancelhas e mandou seu interlocutor visitar a Ponte de Paris. Em alto e bom som para todos ouvirem.
E, com a maior calma do mundo, dirigiu-se a mim.
– Meu caro, eu faço penhor há 10 anos, desde o tempo em que a Caixa se chamava Monte de Socorro, sei tudo sobre jóias no prego. – e continuou seu colóquio ao telefone.
Aí percebi que o tal Nádio estava no outro lado da linha.
– Tu sabe, Nádio, que de separação eu entendo. Deixei o meu Ex com uma mão na frente outra atrás. Fiquei com quase tudo. E o pobre coitado arrumou uma coroa gastadeira e vigarista que acabou torrando o pouco que havia deixado. Mas bem feito. Homem é tudo igual. E a tua também, se tu não te separar, ela vai detonar tudo o que te resta. E essa tua mulher não é flor que se cheire.
Fiz de conta que não percebi que o Nádio estava no telefone e recebendo moderados e sinceros conselhos acerca de sua vida conjugal.
– Outro dia eu vi a tua queridinha no shopping toda faceirinha. Parecia uma cadela no cio. Dando mole para todo mundo.
Pobre Nádio! As duas mulheres de Nádio. O que o coitado fez para merecer tanto... – pensei no clicar das renovações.
– Meu amor, só me liga quando tiver com o divórcio encaminhado. Certo querido. Tchau, meu bem. Ah! Lembrança pra mocréia.
Aí, sim, desligou o telefone.
– O senhor não acha que eu sou uma ótima conselheira?
– Sem dúvida... acho. – mas acho que ela não acreditou em minhas palavras.
– Sei... – foi o que ela respondeu.
Pagou a renovação com uma nota de R$ 100,00. E se levantou para ir embora. Nesse instante o celular toca de novo.
– Adivinha quem é?
– Nádio. – respondi sem maior interesse.
– Tu de novo seu corno! Não larga do meu pé.
E se foi aos berros, pouco se importando com os olhares desconfiados dos outros mutuários do penhor.
Pobre Nádio. Pelo menos a morena atualizou seu contrato. Mas eu fiquei com a impressão que pode ter sido em causa própria. O Nádio que se cuide.
* Crônica classificada em 3o lugar no VI concurso Rubem Braga da crônicas.

A ligação

– Caixxxxa Federal, boa tardiiiiii!
A telefonista, como habitual e mecanicamente faz, numa sonolenta e morna tarde de outubro, transfere a ligação para mim, com o seguinte recado:
– Athos, ligação de Brasília, o Marçal da Caixa Seguros que falar contigo.
– Ô Marçal! Tudo bem? A ligação ta meio ruim, mas o que tu andas fazendo aí pelo planalto central? Não estavas em São Paulo?
– Tô aqui na seguradora, problemas em cima de problemas, debaixo do mau tempo, nem imaginas.
– Seguradora? Tu não estavas na APCEF-SP, Marçal?
– Não! Eu sempre trabalhei aqui na Matriz. Próximo ao poder, na cidade que Oscar Niemeyer projetou e Juscelino Kubitschek construiu.
Neste lado da linha, meio patético, estou achando a conversa meio sem-pé-nem-cabeça. O Marçal na seguradora? Ele não tinha sido transferido para São Paulo? Ele não estava na agência Anhagabaú, totalmente adaptado à metrópole paulista?
– Atho! Seguiu falando o suposto Marçal.
– Estamos com um problema para liberar o seguro. O processo foi mal encaminhado. Faltam documentos e provas. Os cálculos terão que ser refeitos novamente.
– Que seguro? Que documento? Marçal! Eu estou no penhor.
“Por que o Marçal tá falando o meu nome sem o “s”?” – pensei cá com os meus botões.
– Pô Atho, o seguro do Valdomiro, aquele que demoliu o carro aí na 290. Não tá lembrado?
– Quem está falando, afinal?
– Aqui é o Marcelo da Caixa Seguros.
– Marcelo?
– Sim, o Marcelo.
– E tu desejas falar com quem?
– Com o Otto, o Superintendente do escritório de Negócios de Santa Maria, certo?
– Errado! Só um momento, Marcelo.
Transfiro, novamente, a ligação para a telefonista.
– Esta ligação não é do Marçal para falar com o Athos e, sim, do Marcelo para falar com o Otto. Certo?
– Ah! Bom, só um momentinho.
E segue a telefonista, na sonolenta e morna tarde de outubro.
– Caixxxa Federal, boa tardiiiiii! Seu Otto a ligação de Brasília.
– Fala grande amigo Julio Rafael.
– Aqui é o Marcelo.
– Mas eu pedi uma ligação para o Julio...
– Caixxxxa Federal, boa tardiiiiii!

terça-feira, 3 de junho de 2008

A francesinha

Uma senhora, habitué nas dependências do penhor. Faceira, ágil e sorridente, que devia ter seus sessenta e poucos anos, aparentemente, bem-vividos.
Tinha uma atitude apressada e gestos rápidos. Os cabelos de um preto intenso, óculos fundo de garrafa e uma verruga bem na ponta do queixo.
Muito conversadeira quando vinha penhorar ou renovar algum contrato. Às vezes se atrapalhava nas datas, mas isso não era um motivo para estresse. Sorria com sua falta de memória e confusão com a papelada do penhor. Que era como se referia ao conjunto de contratos e um sem-fim de renovações que sempre trazia na bolsa.
Nos breves instantes em minha frente contou um pouco de sua vida.
Tinha o nome e sobrenome franceses. Louise Rennée du Poisson. Seus pais eram naturais da França e vieram para o Brasil dois anos antes de ela nascer. Tinha muito orgulho do sobrenome que carregava.
Quando adolescente enamorou-se de um rapaz que se chamava José Pereira, funcionário de um Banco estatal. Se apaixonou e casou com o jovem bancário Zé. Um rapazola de família humilde e muito trabalhador.
Só não aceitou trocar seu registro de batismo. Manteve o nome original. Não admitiu colocar o Pereira no sobrenome. Sendo de uma linhagem tradicional da França seria inconcebível um Pereira na família.
Após ter contado sua instigante história, concluiu.
– Imagina! Louise Rennée du Poisson Pereira. Nunca! Jamais! – o jamais com sotaque francês
– Fui a primeira mulher na cidade a não aceitar o nome do marido. – e completou. – Não me arrependo.
Dona Louise soltava o verbo quando o assunto era o seu marido. Que, segundo ela, já estava mais pra lá do que pra cá. E já fazia algum tempo. Dona Louise Rennée du Poisson também contou com picos de extremada felicidade e euforia que o velho Zé Pereira estava nas últimas. Fazia cinco anos que o velho estava nas últimas e nunca “dava jeito” como comentou em outra oportunidade.
– A gente fica numa torcida, e o malvado sai caminhando do hospital. Vê se pode?
Depois que eu fiz a consulta e ter verificado que o contrato vencia daqui a dois meses, ela pouco se importou, acomodou-se na cadeira em minha frente e começou o seu rosário de contos familiares, ou melhor, do Zé Pereira, pois ela não tinha filhos. Nunca quis ter filhos.
– Colocar filho no mundo e filho de um Zé Ninguém, era muita irresponsabilidade. E um desrespeito com a criaturinha que estaria por nascer.
“Imagina! Ter filho de um Zé Pereira”. – pensei e sorri do meu chiste.
– Imagina! Ter filho de um Zé Pereira. – falou, lendo meus pensamentos.
Então, contou que na noite anterior o Zé Pereira, seu adoentado marido que sempre estava nas últimas, disse que estava com falta de ar e que iria morrer.
– Claro que vai morrer, todo mundo morre. Eu disse pra ele. – e gargalhava do outro lado do guichê.
– É, algum dia a gente vai morrer, mas não precisamos ter pressa. – respondi.
Como não havia ninguém para ser atendido continuou com seus casos.
– Hoje, o Zé Pereira amanheceu com a pá virada, disse que tentou se matar na tarde anterior. Atravessou, bem devagarinho, a rua e nenhum carro o atropelou.
E eu ali na frente dela ouvindo aquela ladainha e com uma cara de sono.
– Agora eu pergunto: quem vai atropelar um velho atravessando uma rua, bem devagarinho?
Deu dois passos para a esquerda, bem devagarinho, imitando o velho, e repetiu.
– Quem?
– Ninguém...
– Falei pra ele. Tem que esperar vir um carro e se jogar na frente. O senhor não acha?
– É uma hipótese...
– Quem quer se matar não avisa. Aquilo não vai se matar nunca. É um cagão. E quem tem que lavar as fraldas sou eu.
Encerrou a conversa dizendo que depois de sua morte, apenas, os seus cachorros sentiriam a sua falta.
Levantou-se e saiu ligeirinha. Caminhou alguns passos apressados e voltou.
– Quando é mesmo o vencimento dos meus contratos?