quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Complicação Artérielle – Não vimos no curso de relógios

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Na formação do avaliador de penhores está incluído o conhecimento sobre relógios. E nas primeiras páginas do polígrafo, somos apresentados a máquina do relógio a corda.
Assim, quando abrimos a caixa aprendemos que Ebauche é o que sobra do relógio se você tirar os ponteiros, o mostrador e a caixa. É o que faz o bicho funcionar.
A partir dessa aula teremos que nos familiarizar com a roda de carga da coroa, roda de carga do tambor, roda de carga, tambor da coroa, terceira roda, quarta roda, roda de escape, ancora, balanço e espiral. Calma! Isso não é um carro de Fórmula 1. E um monte de nomes que fazem dessa maquineta os anseios de apaixonados pelo mundo dos relógios. A isso chamamos “trem de rodagem”. É fascinante essa micro-engenharia em pleno funcionamento.
Nós podemos compreender o avanço tecnológico da humanidade estudando a história dos relógios. Por exemplo, a passagem do relógio a corda para o automático, foi um marco histórico. Imaginem: o balanço dos braços dava corda no relógio. E entra mais um nomezinho estranho: rotor ou massa oscilante. Massa oscilante não é a mesma coisa que a galera fazendo a "ola" no Beira-Rio.
Quando entrou o relógio a quartzo foi um deus-nos-acuda. Uma crise na indústria dos relógios. Nesses relógios nos percebemos que existe a “válvula de hélio”. Uma saída vip para o gás Helio que entrou na caixa do relógio sem ser convidado. Foi assim que eu guardei a explicação. E esqueci os termos técnicos.
E o capitulo das complicações então? Aquilo tudo que o relógio faz além de fornecer as horas chamamos de complicações. Data, calendário anual e calendário perpétuo são complicadores e esse calendário perpétuo só será ajustado no ano de 2100, que será um ano bissexto anômalo. Ou seja, estaremos na paz da tumba e o relógio estará funcionando perfeitamente.
Temos as complicações que nos dão as fases da lua e a equação do tempo. A diferença entre a hora solar absoluta e a hora convencional. Só não me perguntem para que serve saber essa diferença de alguns míseros minutos.
A complicação Régulateur – que lemos regulatê –, nesse relógio os ponteiros das horas, minutos e segundos estão descentralizados. Não estão no mesmo eixo.
As complicações são inimagináveis. Tem um fulano que se autodenomina “Rei das Complicações”. E o brinquedinho que o cara inventa pode chegar a 4 milhões de euros. Coisa que nós podemos comprar com uma parcela da nossa PLR.
E os cronógrafos? Na atual conjuntura, muito usado pelos ministros em suas contagens regressivas. Se bem que os relógios retrógrados – o ponteiro não faz uma rotação completa – também têm uma boa aceitação no congresso.
Enfim, o mundo físico dos relógios é pequeno, mas vasto e apaixonante. E eu já estou pensando numa complicação. Uma complicação que vou chamar de Complicação Artérielle. O relógio vai coletar o sangue, fornecer os índices de glicemia, colesterol – bom e ruim – e triglicerídeos. E também vai medir a pressão arterial. Por isso o nome Artérielle. Chique, não. Vai custar na ordem de dois milhões de euros. Somente por encomenda.
Enquanto isso, vou ali na banca da esquina comprar o meu Rolex oyster perpetual quartz.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O penhor do cabernet [*]

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Temos que saber lidar com as premonições, avisos que inexplicavelmente recebemos e, na maioria das vezes, não temos a compressão exata. O fato é que podemos pressentir algumas situações momentos antes de acontecerem.
Explico: dia desses acordei – e não sei por que cargas d’água –, comecei a cantarolar uma música símbolo da Quarta Colônia.
“Quando si pianta la bella polenta, la bella polenta si pianta cosi, si pianta cosi, si pianta cosi.”
É uma bela canção e eu cantava em frente à televisão no momento em que o “Bom dia Rio Grande” fazia uma reportagem sobre uma nevasca em Gramado. Lá na Serra os turistas fazendo festa com a neve e eu ali imaginando como é que os gringos plantavam polenta.
No caminho do serviço veio em minha mente outro clássico musical dos imigrantes italianos. Um hino da Quarta Colônia.
“Mérica, Mérica, Mérica, cossa saralo ‘sta Mérica? Mérica, Mérica, Mérica, um bel mazzolino di fior.”
Por que raios eu estou com essas músicas na cabeça?
Não passou dez minutos e o telefone celular toca. Era a filha avisando que tinha que fazer a matrícula do italiano na AISM. Eu teria que fornecer os cheques pré-datados. Estava explicada a minha cantoria das músicas dos italianos. A minha parca sensitividade explicava a inspiração. Restava, naquele momento, assinar os cheques e “cia cia pum, cia cia pum, cia cia pum.”
Lembremos que o dia estava recém começando e eu ainda viveria momentos incríveis inspirado na minha pseudossensitividade. Devidamente acomodado no meu local de trabalho, tamborilava uma tarantela diante do computador.
Nesse instante, aproxima-se do guichê uma senhora idosa e, coincidentemente, também cantarolava a “bella polenta”. O sotaque era visível, se não era italiana, estava na barriga da mãe num navio vindo da Itália. Apresentou-se.
– Eu me chamo Esmeraldina Mimosa Sousa de Souza. O primeiro com “s” e o segundo com “z”.
Eu fiquei com a impressão que já tinha ouvido, em algum lugar, aquela estória de Sousa com “s” e Souza com “z”. Essa velhota está me enrolando. Com esse palavrório italiano e com sobrenome Sousa de Souza. A velha parece que leu meus pensamentos.
– Minha mãe casou com um portuga... o Sousa com “s” e eu casei com outro portuga... o com “z”. Veja só a sina dessa família.
Depois de uns momentos de silêncio em que me pareceu que a dona Mimosa fazia umas preces para o Diácono, ela começou a tirar umas garrafas de vinho e colocar em cima do guichê. Seis garrafas de um cabernet sauvignon da Cantina Vô Bepi.
– Eu quero penhorar esses vinos aqui.
Eu não sabia o que dizer. Já vi de tudo aqui no penhor. Mas penhor de vinho? Era a primeira vez. Quem sabe uns vinhos de guarda... era uma sugestão a ser colocada na ouvidoria.
– Dona Mimosa, nós só penhoramos joias.
– Mas esse vino é una joia...
– Eu sei que é uma joia de vinho, comprei umas garrafas numa festa lá em Agudo. Mas infelizmente...
Ela resmungou alguma coisa num dialeto incompreensível, mas no final se entendia um “porca miséria” que não deixava dúvidas sobre a sua indignação. Repentinamente, levantou-se e saiu.
– Dona Mimosa, a senhora esqueceu os vinhos em cima da mesa.
– Muito peso para levar de volta para Faxinal.
– O que eu faço com essas garrafas?
– Beba! Santo Cristo!
Fazer o quê? Levei para casa as seis garrafas de cabernet e numa dessas noites geladas tomei uma delas com uma sopa de agnolini.
Naquele dia saí da agência cantarolando “castelhana se você me ama, me ama” na esperança de que uma fogosa correntina viesse penhorar um malbec de Mendoza no dia seguinte. Afinal, eu sou um pseudossensitivo.

[*] Crônica classificada no concurso Histórias de Trabalho 2012. Prefeitura de Porto Alegre.

sábado, 30 de abril de 2011

Six Six Six

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

O dia 06.06.2006 poderia ser um dia qualquer em uma terça-feira perdida na década. Alguém, distraidamente, comentaria algo se reportando ao 09.09.1999 ou o 08.08.1988.
Essas datas são inesquecíveis. Os místicos adoram essa sequencia lógica de números. Se reduzirmos para 06.06.06 fica mais plástica, uma data que desce redondo. Reduzindo-se ainda mais, ela fica alarmante: 666.
Naquele dia o amanhecer foi nublado. Um prenúncio de temporal. Pelo menos foi assim que eu enxerguei aquela manhã em Santa Maria.
Quando fui manobrar o carro para sair da garagem, raspei o para-lamas no marco da porta da garagem. Coisa que jamais havia acontecido. No deslocamento para o serviço quase atropelei duas freirinhas na faixa de segurança por pura desatenção minha. E chego no penhor rengueando por conta de um tombo no umedecido hall da agência.
“Eu deveria voltar para casa e ficar quietinho esperando o dia passar”. Pensei antes de dar bom dia aos colegas.
No penhor reinava a normalidade, claro, até chamar a primeira senha para atendimento. O dia anterior havia encerrado com o número 65. Então, chamei naquele dia 06.06.2006 a senha 66. E essas coincidências sempre dão um causo.
O cidadão se aproximou com a maior calma do mundo. Estava todo de preto e de óculos escuros. Colocou sobre o guichê seis cruzes, seis garfinhos tridentes e seis foicezinhas, tudo em ouro 22 quilates. E eu fiquei imaginando quem seria louco suficiente para fazer foicezinhas de ouro. Ainda se fosse um comunista convicto – e rico – vá lá. Mas aí faltariam os martelinhos de ouro? Nesse instante lembrei do carro amassado.
Comecei a ficar alarmado com aquelas cruzes, garfos e foices quando o cliente tira os óculos e o vermelho de seus olhos faíscam na minha retina.
– Conjuntivite – falou diante do meu espanto e me alcançou a carteira e o CPF.
Pelo visto as unhas também estavam com conjuntivite, pois tinham um vermelho intenso e não era pintura.
A data de nascimento nem vou comentar, é possível imaginar, mas o nome dizia tudo. O cara se chamava Gorgo Six Six Six da Silva Silva. Filho de Hóstio da Silva e Maria Baphomet da Silva.
Aquela montoeira de “s” deixava o nome mais horripilante, mas havia um Hóstio e uma Maria para dar um resquício de normalidade. Mas foi apenas um resquício. Tentando aparentar tranquilidade fiz uma indagação sobre o nome Hóstio de seu pai.
– Meu avô era muito cristão – falou secamente.
Só fiquei curioso para saber como seriam os nomes dos filhos do Gorgo. Mas eu não iria fazer essa pergunta.
Fiz a avaliação que ficou em pouco mais de R$ 2.000,00 e que para um prazo de trinta dias dava liquido a quantia de R$ 1.666,66. E eu não acreditava no que via na tela do computador. Quase caí da cadeira.
Entreguei a grana ao vivente – naquelas alturas eu estava em dúvida se o individuo era vivente ou se era morrente – e, prontamente, desejei uma boa semana. Estava ansioso, pois o cara poderia querer me propor um pacto. O Gorgo leu meus pensamentos.
– O senhor quer ser um homem rico e ter todas as mulheres que quiser? – falou num tom sinistro.
Percebendo que meu estado emocional estava abalado, sorriu e não esperou a resposta.
“Não, dessa vez, não. Eu fora”. – pensei e sorri amarelo.
O meu silêncio disse tudo, mas quando Gorgo voltar para fazer a renovação eu posso mudar de ideia. Afinal, nós não tratamos em cifras.

sábado, 16 de abril de 2011

O penhor do maragato [*]

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Cheguei no hall da agência faltando pouco mais de quinze minutos para a abertura do expediente.
A fila dava voltas no ambiente do autoatendimento. O primeiro cliente, que estava próximo da porta giratória, chamou atenção por ser um gaúcho pilchado a capricho. Todo na estica – como diria uma saudosa tia de Rio Pardo –, devidamente paramentado para o desfile farroupilha de 20 de setembro, ou para um baile no Sentinela da Querência. E o mais estranho é que estava com os arreios a tiracolo. Será que o tordilho ficou na frente da agência?
Imaginei, sem maiores preocupações, que o bombachudo da fila não seria cliente potencial para fazer penhor. O que um gaúcho com vistoso lenço vermelho, bigode de causar inveja ao Guri de Uruguaiana e longas melenas traria para colocar no penhor?
Em outros tempos eu teria observado uma aliança, anel ou uma corrente de relógio de bolso, mas nada estava mais evidente que os tais arreios a tiracolo.
– O maragato não vai para o penhor. “Minha casa, minha vida” é o “destino do peão” – afirmei, cantarolando a música do Noel Guarani.
Dois minutos após abertura da agência eu mordi a língua. O maragato dos quatro costados havia entrado no recinto do penhor. O fulano estava transformado em chapéu, bigode e lenço. E os arreios de arrasto por uma das mãos.
Quando apertei o botão das senhas eu me lembrei de uns versos do “Bochincho” de Jaime Caetano Braum “e foi ele que se veio”. Largou em cima do guichê um buçal, um par estribos e um par de esporas. Todos os apetrechos de prata 600.
Eu fiquei pensando no que iria dizer para o gaudério. Quando comecei a falar sobre os penhores de prataria, imaginando o guasca adentrando, batendo esporas, na agência Sé em São Paulo, o vivente puxou da cintura uma enorme faca. Uma adaga de prata que colocou os vigilantes de prontidão. Aquilo foi um alvoroço.
– Foi do meu bisavô. O velho peleou ao lado de Antonio de Souza Neto na revolução Farroupilha.
Senti um arrepio na espinha. Num primeiro instante levei um baita susto, achando que fosse um assalto. Mas percebi que a adaga também era prateada e me acalmei. Mas o coração bateu no compasso de um chacarera.
Depois das devidas explicações sobre os penhores de prata o vivente recolheu aquela tralha toda. Botou, novamente, a adaga na cintura e ficou se lamentando do pouco valor do metal. Afinal, era uma sesquicentenária adaga Farroupilha. Então, colocou sobre o guichê um par de alianças, uma corrente para relógio e um patacão com a efígie de Dom Pedro II – uma raridade – segundo o bigodudo dono. Sorriu com o canto da boca ao perceber meu espanto com antiga moeda.
O teste das alianças deu ouro baixo e a corrente ouro dezoito. O gaúcho observava atentamente o meu manejo com os ácidos.
– O que é a ciência... – falou a esmo e não se conteve. – O senhor testa dente de ouro?
– Claro, me alcance que a gente já fica sabendo se é ouro.
Abriu um sorriso de orelha a orelha e os caninos reluziram o metal nobre em minha frente. Com o indicador apontou para a própria boca.
– O senhor viu o que os ácidos fizeram com o ouro das alianças. Imagina o que fariam com sua língua?
Como por encanto o sorriso estancou. E franziu as sobrancelhas.
– Deixa quieto – falou mostrando desinteresse.
Fechado o acordo para fazer o contrato, solicitei a documentação. Percebi, logo, que o gaúcho era conterrâneo de Santiago do Boqueirão – terra dos poetas – e tocaio de Caio Fernando Abreu.
– Muito bem seu...
– Caio Fernando Saraiva – e repetiu enfaticamente ajeitando o bigode com as mãos. – Saraiva. Saraiva.
Resolvi provocar o vivente. E fiz uma pergunta sobre o passado de Caio Fernando Abreu.
– Caio Fernando Abreu foi patrão de um CTG em Santiago na década de 70? O Caio era um bombachudo mais grosso que dedo destroncado. E era um baita domador. Não havia bagual, em toda a região das Missões, que derrubasse o rapazola. Só tinha um defeito, era Chimango. Não era?
– Deixa quieto. Deixa quieto. – falou, sorrindo, para não se comprometer.
Então, percebi que toda vez que não queria falar ou emitir opinião dizia “deixa quieto”. Para não cair no politicamente incorreto resolvi também “deixar quieto”.
Entreguei o dinheiro para o Caio Fernando Saraiva que colocou tudo na guaiaca e se foi rumo ao elevador, mas sem antes dar um tropicão no totem do penhor logo adiante. Sorriu amarelo e seguiu.
Então me dei por conta em saber como é que o taura entrou pela porta detectora de metais com aquela adaga de prata. E eu mesmo respondi. – Deixa quieto.



[*] Crônica classificada no 18 concurso Histótria de Trabalho 2011.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

A velhinha e o americano

Athos Ronaldo Miralha da Cunha
twitter.com/athosronaldo

Alguns clientes são habitués no penhor. Aqueles que aparecem em dias de chuva, têm os contratos mais antigos e são os mais extrovertidos. Mas as velhinhas viúvas, simpáticas, sorridentes e bem-humoradas estão no topo da preferência. E foi uma delas que sentou em minha frente. E não era dia de temporal.
O período era de um inverno de renguear cusco, meio de mês e pouco movimento na agência. Eu não devia escrever que havia tomado um cálice de vinho tinto no almoço, mas o fato é que eu havia tomado um cálice de vinho tinto no almoço. E por conta desse cálice de vinho estava acometido de uma lombeira.
Ao cumprimentar a velhinha com um sonolento “boa tarde” ofertei um longo e relaxante bocejo. Não teve dúvidas e a velhinha bocejou de volta. Diante do bocejo da velhinha outro bocejo meu.
– Para de bocejar! Senão eu também não paro – afirmou sorrindo. – Estamos como dois boca abertas.
E os bocejos se intensificaram. Eu bocejava daqui a velhinha bocejava do outro lado do balcão. E sorria – bocejando – pedindo que eu parasse de bocejar. Chegou a tal ponto que nem olhava mais para mim. Me entregou os documentos olhando para o guichê da colega ao lado. Eu chorava de rir do jeito da velhota. Entreguei a renovação e um bocejo e a velhinha saiu rapidamente do guichê. Bueno, como estou falando em bocejo nessa crônica é evidente que estou bocejando nesse momento... e me lembrando da velhota.
A velhinha saiu resmungando alguma coisa entre um bocejo e outro, quando um cidadão de uns dois metros de altura me entrega um papel e permanece em pé num silêncio absoluto. Verifico o documento e vejo que é um cheque viagem de U$ 500,00. Sem saber o que fazer com aquilo, pedi que aguardasse alguns minutinhos que iria verificar com o gerente. Imaginei que ele estava enganado, a coisa não era com a Caixa, mas, enfim, não custa buscar informação. Voltei e expliquei que deveria se dirigir ao Banco do Brasil para fazer a troca. E falei que a Caixa não tinha esse tipo de serviço e que ele estava no penhor. Também expliquei o que era penhor e blábláblá.
– I do not speak português – falou essa única frase para espanto meu depois de ter gasto todo o verbo em explicações.
Pensei em responder “Yo también no hablo português”, mas seria maldade com o americano. Não fazia a menor idéia de como encaminhar o gringo para uma agência do Banco do Brasil, quando a velhinha que bocejava retorna.
– Eu falo inglês. Fui professora de língua estrangeira no Manoel Ribas. Fui professora do atual prefeito – falou cheia de importância.
Sorri satisfeito, só no penhor para se encontrarem um americano, que não fala português, e uma ex-professora de inglês do velho Maneco.
E foram os dois em altos papos – no idioma de Obama – até o elevador. Ela se volta e me olha, boceja, sorri e some elevador adentro.
Lógico, eu também bocejei e percebi que não havia autenticado a via da velhinha.

sábado, 27 de novembro de 2010

O namorado da viúva do promotor

A maioria das pessoas contratantes de empréstimo sob penhor de joias é formada de mulheres. E a maioria das mulheres são professoras. Mas isso é, apenas, um dado estatístico, pois homens também fazem penhor.
Assim, sentou-se em minha frente um senhor alto e com volumosos cabelos brancos. Muito conversador. Ao entregar-me a cédula de identidade percebi, de pronto, a data de nascimento: junho de 1922.
Enquanto refletia sobre a vida e o tempo o senhor de descendência germânica sofria para retirar a aliança e o anel do dedo. Naquele meio tempo em que eu estava no “La pucha que o tempo passou ligeiro” e fazendo contas futuras o cidadão continuava com grande e insuficiente esforço para retirar a aliança e o anel do dedo. Fez uma pausa – já estava com o rosto vermelho – e contou que, certa feita, quando trabalhava numa joalheria, na esquina da Floriano com a Bozzano, um funcionário inventou de botar uma aliança no pinto. Uma senhora da alta sociedade obesa da cidade havia encomendado e fazia mais de semana e não viera buscar. Então, de sacanagem, o colega botou a joia no pinto. Só que não conseguia tirar a aliança do seu membro e por acaso e coincidência a senhora adentra na joalheria. O guri suava por todos os poros e a aliança lá.
– A madama aguardando no balcão e o guri com o anel da velha no pinto. E não conseguia tirar. Sobrou para mim, tive que cortar. O anel, o anel. Bem entendido? – e soltou uma gostosa gargalhada.
– E a senhora da sociedade burguesa não ficou enfurecida com a demora?
– Da sociedade obesa – corrigiu e continuou. – Sem problemas a madama – ele falava madama – veio buscar no outro dia. Ontem, assistindo o jornal e vendo aquela confusão do trafico de drogas no Complexo do Alemão. Lembrei que eu fui um alemão complexado por conta do corte do anel no pinto do Zé. Até hoje eu sonho com o pinto do Zé. Tu já cortou o anel no pinto de alguém?
– Nunca!
– Experimente e vai acabar no psicanalista.
Chamava-se Schneider um alemão bem-humorado. Se é que se pode achar um alemão bem-humorado. Mas ele estava ali em minha frente. De repente deu um sorrisinho maroto. Levantou o braço. Pensei em ouvir em seguida o “Hai Hitler”, mas o que vi foi o seu Schneider retirar tranquilamente com a mão direita o anel e a aliança.
– Não conhecia essa hein?
– Essa simpatia de levantar o braço? – respondi perguntando.
Antes de ser taxado de idiota pensei “claro o sangue desce e o dedo fica mais fino”.
– Essa simpatia quem me ensinou foi um colega, o mesmo da aliança no pinto...
– É uma coisa impressionante... – comentei.
Entregou-me as joias dizendo que o anel estava no dedo dele há mais de 40 anos. Fiz o cálculo e a avaliação ficou em pouco mais de duzentos reais. Se no mundo existe um idoso, alemão, humorado e conversador, essa pessoa, mais dia, menos dia, faria um penhor comigo. Isso é lógica! A lógica do penhor é claro.
O senhor Schneider divagou pela sua longa existência enquanto avaliava as joias.
– O senhor está com...
– 88 anos bem vividos. Caminho, vou a baile, danço e namoro bastante – e soltou outra estrondosa gargalhada.
Uma velhinha que estava logo atrás fez uma cara de quem não gostou do alemão. Estava escrito em sua testa: velho devasso.
Mas o seu Schneider – que me lembrou um antigo goleiro do Internacional – continuou com seu relato. Falou que tinha uma namorada 30 anos mais nova. “Pronto, é agora” pensei.
– Ela que me ensinou a dançar tango e chamamé. É viúva de um promotor e cheia da grana. Mas hoje estou fazendo um penhor para comprar remédios. Sabe como é né. Vou comprar uns gremistinhas...
– Gremistinhas? – perguntei.
– Aqueles azuizinhos. Tenho encontro hoje com a viúva do promotor.
A velha atrás quase subiu pelas paredes. Mas percebi nos olhos dela um certo interesse pelo alemão. Só não entendi o porquê do penhor se a viúva do promotor era cheia da grana. Mas o fato é que seu Schneider botou a grana no bolso e foi direto para a Panvel.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A bela do sapato


Nesses anos todos de banca nas avaliações de joias, observei algumas coincidências. Uma delas é com a senha de chamada para atendimento. Ao chamar a senha 24 ou 69 podia ter certeza, a história rendia.
Novamente aquela pasmaceira de meio de mês. E uma colega, recém-formada no curso de avaliadora, fazia o estágio comigo. Eu, o ilustre orientador na agência.
Quando ela saiu do elevador o penhor e a habitação – que estão no mesmo andar – pararam. Literalmente o tempo parou. Todos os olhos se voltaram para a beldade. Eu não via mais nada, apenas, um par de longas e esbeltas pernas bronzeadas se aproximando do guichê. Ela não caminhava, desfilava pelo recinto. Usava uma mini-blusa vermelha e uma minúscula saia branca. Tinha um longo cabelo preto com uma tiara amarela. O cabelo liso, como uma cascata negra, jorrava pelas costas até a cintura. Meia dúzia de pulseirinhas douradas e brincos em forma de coração. Usava um sapato preto exageradamente alto e uma bolsa também vermelha. Isso tudo foi observado pela Michelli – a avaliadora estagiária – eu só tinha olhos para as suas bem torneadas pernas.
– Tenho que pegar a senha? – perguntou com voz melosa e delicadamente apontando para a maquineta.
– Não precisa – falou Michelli.
– Precisa – falei, imaginando qual o n úmero da senha.
É claro que ela pegou a senha 69 e a história recém estava começando.
Antes de dizer um oi, boa tarde ou qualquer expressão que identificasse que aquele monumento sorria e queria fazer penhor, tocou o celular.
– Não! Não é esse o número, foi engano.
Não sei o que o interlocutor da beldade falou do outro lado, mas foi um recital de: muito delicado de sua parte. Muito gentil. Ahan. Legal. Pode sim. Tudo bem. Bah! O bah ela falou quatro vezes. E um amontoado de palavras gentis. E a conversa dos dois desconhecidos se prolongou por mais de dez minutos. Enfim, desligou o celular e comentou apenas.
– Vá que seja fazendeiro...
Com a maior sem-cerimônia, a moçoila colocou a perna em cima do guichê, com aquele baita sapato preto com uma enorme fivela dourada que, como os brincos, tinha o formato de coração. Não esqueçamos que ela estava de minissaia e o penhor em estado de graça, todos os sete avaliadores.
– Quero penhorar esse sapato porque a fivela é de ouro.
– Não existe sapato com fivela de ouro – respondi de pronto.
– Mas o moço da casa Eny disse que era folheado a ouro 18 quilates, logo, é de ouro. Então quero avaliar.
– Mas...
– Quero testar – falou a estagiária.
Estava ávida por pingar uma gotinha de ácido na fivela do sapato da moça. Não sei se para testar seus conhecimentos ou por vingança. Mas o fato é que testamos a fivela.
– Então vamos testar a fivela para ver se realmente é ouro. A senhora...
– Senhorita.
– ...Senhorita pode tirar o sapato.
O movimento que ela fez para tirar o pé de cima do guichê foi algo próximo da suprema corte do paraíso. O penhor era um silêncio só. Ninguém renovava. Ninguém avaliava. Ninguém resgatava. E todos suspiravam com os olhos nas fivelas do sapato da moça. Por alguns momentos teve dificuldade para desafivelar o sapato. Quando me prontifiquei para ajudar ela falou a palavra que foi um balde de água fria em minha ansiedade e taquicardia.
– Consegui!!!
Incrivelmente o sapato tinha um aroma de erva doce. Michelli fez o teste e concluiu o que todo o universo e os mais de mil avaliadores concluiriam.
– Não é ouro!
A moça fez um beicinho que eu achei a coisa mais lindinha do mundo. Devolvemos o sapato, mas sem antes perguntar de onde era aquele aroma de erva doce. Respondeu que havia passado alcoolgel nos pés. Sabia e tinha visto a entrevista do ministro da saúde recomendar o uso do álcool nas mãos, mas por segurança, passava também nos pés. E eu fiquei imaginando o porquê.
– Tchau, doutorzinha – e saiu sem dar mínima bola para mim.
Encerrou o desfile na porta do elevador e o penhor voltou a sua normalidade. Então percebi que um gaúcho todo paramentado com estribos e arreios de prata aguardava atendimento. E a senha não era 24 nem 69. Mas a estampa do vivente não deixava dúvidas. Afinal, era aquela pasmaceira de meio de mês.