domingo, 16 de março de 2008

O remédio

Sexta-feira, dia 18 de maio, o Sistema do Penhor não funcionou. Mais uma vez ficamos com a cara de tacho diante dos clientes. Então percebemos que nossas desculpas estão em desuso, em estado de depreciação avançada. A culpa é do sistema há mais de dois anos.
Quando afirmei que o penhor estava fora do ar, mãe e filha se entreolharam e emitiram um leve sorriso de resignação.
- Fazer o quê? – comentou a filha.
Decidiram permanecer no recinto por mais alguns minutos. Na esperança de que o tal Sipen voltasse de sua caverna oculta. Resistiram 45 minutos e foram embora. Percebi uma tristeza em suas faces e se foram lentamente. Ombros caídos e andar trôpego.
Segunda-feira, como um seriado de enlatado americano, a cena se repetiu. Novamente o sistema não deu as caras na minha telinha social. O olhar triste e o sorriso de resignação de mãe e filha mais uma vez, também, se repetiu. Mais meia hora de espera e um tchau desanimado e seco.
Terça-feira à tarde ao serem comunicadas que o sistema ainda estava em estado de coma, elas nem sentaram, foram embora sem expressar um sinal de indignação. Nenhum esboço de raiva. Cabisbaixas, porta afora.
Quarta-feira o sistema voltou de seu exílio voluntário. Abrimos o dia fazendo contratos novos. O Sipen havia voltado do retiro espiritual. Era uma quarta-feira de cinzas da informatização do penhor.
Por volta das 14 horas, mãe e filha entram no recinto. Tão logo as vi, fiz um sinal de positivo. Um sorriso iluminou suas faces. Pegaram a senha e aguardaram sua vez.
Após receberem os R$ 256,00 referentes ao contrato efetivado, a filha comentou antes de sair.
- Finalmente, eu faço hemodiálise três vezes por semana e hoje conseguirei comprar meus remédios.
Então, percebi que suas poucas jóias era sua salvação e o penhor uma questão de vida ou morte.
E a culpa é sempre do sistema.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A senhora dos anéis *

O expediente bancário teve início às 11:00hs, pois era uma morosa quarta-feira de cinzas. Tudo ao redor parecia estar meio sonolento. Uma providencial caneca de chá de boldo estava a disposição para uma momentânea reanimação.
Em minha frente, sentada pacientemente, uma simpática senhora, há muito mutuária dos penhores da caixa, se orgulhava de possuir o contrato mais antigo de nossa agência, as moedas de ouro mais raras da cidade e as jóias mais valiosas de sua tradicional família de imigrantes italianos. As moedas, herança de seu avô, que as havia recebido de uma escrava que tinha comprado a liberdade. As moedinhas de ouro viajaram pela árvore genealógica desde o império. Um tesouro inestimável. Era o seu comentário acerca do valioso valor numismático de suas libras e ducados.
De repente começou a tecer comentários sobre o seu saudoso esposo e da falta que o velho Olavo fazia.
- Um cavalheiro, educadíssimo, uma excelente pessoa, decente, tinha um coração muito grande, pena que partiu muito cedo. Um homem bondoso. Em todos os meus aniversários me presenteava com jóias. Imagina! Uma jóia por ano. Ainda posso vê-lo chegando com uma caixinha decorada, um buquê de rosas vermelhas, as minhas prediletas, e um cartão. Como era romântico o Olavo!
O Olavo foi o personagem do interminável monólogo elogioso em nossa frente. Dona Benvinda até esqueceu das suas raras e maravilhosas moedas do século XIX.
- Este anel eu ganhei quando completei 25 anos, foi a primeira e mais linda das jóias que o Olavo presenteou-me. E nós já estávamos casados há sete anos. Esta aqui quando eu completei 26 anos... não, esta foi nos 28. Aquela ali foi nos 26, o brinquinho de esmeralda nos 27 e o anel solitário nos 29. O colar de pérolas nos 30, a gargantilha nos 31... quanta saudade. Aquela pulseira berloqueira nos 32...
- Dona Benvinda, com que idade a senhora está?
- Moço!!!!
- Desculpe-me.
- Onde eu estava... a sim, aquela pulseira de ouro branco com diamantes, nos 33, o anel de rubi nos 34... os brincos de pérola nos 35... o solitário de um quilate nos 36... o camafeu nos 37...
E o expediente recém estava começando.

* Crônica classificada no 12º Concurso Histórias de Trabalho 2005.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Os ciganos e o CasaCap

Essa história aconteceu alguns dias após a lançamento do CasaCap, um fundo de capitalização para aquisição da casa própria. Naquela oportunidade recebemos uma camiseta pólo com a estampa da marca da Caixa e de uma casinha que simbolizava o produto. Os prazos do penhor ainda eram de 28, 56 e 84 dias e o programa do penhor era o saudoso Aurus.
O inverno tinha dado uma trégua e o dia estava quente. Um calor que nos enchia de ânimo. No penhor, estávamos uniformizados com a camiseta do CasaCap. Pontualmente, às 11 horas, um casal de ciganos posta-se em minha frente.
Dona Cecília informou que uma amiga, também cigana, tinha avisado que poderia efetuar a renovação do contrato de penhor sem pagamento e ainda levar um dinheiro por conta da valorização do ouro.
- A gente renova e leva um dinheirinho de volta. – comenta a cigana sorridente.
São vinte e oito contratos. O Aurus – antigo programa do penhor – não permite fazer o cálculo pelo total, tenho que fazer um por um. (O Aurus também tinha suas pequenas falhas).
- O senhor faça o cálculo para 56 dias para ver quanto a gente leva.
Começo a jornada dos cliques. Abro o primeiro contrato; clico duas vezes no número, clico em 56 dias a receber e fecho o contrato. Abro o segundo contrato; clico duas vezes no número, clico em 56 dias a receber e fecho o contrato... vinte e oito vezes.
Na dança dos cliques vou imaginando... só falta a cigana querer os cálculos para 28 dias.
- Pronto! No prazo de 56 dias vocês levam R$ 666,00.
A cigana faz uma cara meio estranha. Prevejo a pergunta.
- Poderia fazer para 28? – bingo!
Lá vou eu para dança dos cliques nos 28 dias.
Abro o primeiro contrato; clico duas vezes no número, clico em 28 dias a receber e fecho o contrato. Abro o segundo contrato; clico duas vezes no número, clico em 28 dias a receber e fecho o contrato... vinte e oito vezes.
- Pronto. No prazo de 28 dias vocês levam R$ 1.027,00.
- Beleza! – dessa vez quem sorri é o cigano, que tinha um bigode de causar inveja ao Olívio Dutra.
Os olhos da cigana sorriem em silêncio para mim.
Vendo tamanho saldo a receber, não tenho dúvidas, vou atracar um CasaCap nessa cigana, afinal de contas, toda mulher sonha com a casa própria. E comecei explicar as vantagens do CasaCap. Os sorteios e as remunerações no final dos 36 meses. Expliquei que poderiam utilizar o dinheiro para obter um financiamento habitacional, afinal era apenas uma poupança.
O cigano olhou seriamente para a cigana, a cigana também olhou seriamente para o cigano e ambos olharam para mim. Comecei a perceber que não estavam me entendo, mas continuei as explicações.
De repente a cigana interveio.
- Moço, muito bem, mas vocês não teriam por aí um BarracaCap. Esse a gente faria.
- BarracaCap??!!
Lógico, porque não pensei nisso antes...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A perua


Ela entrou nas dependências da agência e olhou discretamente para o penhor. Tinha umas grandes e indecentes olheiras, um esquilo enrolado no pescoço e um cachorro à tira-colo.
Uma crônica ambulante vem em minha direção. Pensei.
À medida que se aproximava do guichê, verifiquei que estava enganado. Ela possuía uns estranhos óculos escuros, um chamativo casaco de pele e uma bolsa fora dos padrões normais de pessoas, supostamente, normais. Alguma coisa requisitada do mundo animal.
Em frente a placa escrita penhor, com os dedos polegar e indicador, os demais levantados, baixou os óculos até a ponta do nariz, olhou de cima abaixo o ambiente e perguntou.
- É aqui que fazem penhoooooorrr?
E ela mesma respondeu.
- É.
Deu uma volta de 360° no sentido anti-horário, num imaginário eixo de rotação e sentou-se na cadeira. Ficou olhando para mim, por sobre os óculos. Então, percebeu que estava sozinha. E veio direto para o meu guichê.
- A porta giratória trancou sete vezes lá embaixo. Até que o guardinha perguntou se eu não tinha nada de metal. É claaaaaaaaro que eu tenho. Eu seeeeeeeempre tenho.
Levantou o braço esquerdo e mostrou as pulseiras.
- Aqui tem 28 pulseiras e eu não tiro nem para tomar banho. Mandei chamaaaarr o gereeeeennte. Quem aquele guardiiiiinha pensa que é?
Não perguntei o desfecho do imbróglio na portaria. O fato que a senhora estava, ali, em minha frente. Uma mistura de Sinhozinho Malta com Viúva Porcina.
- Fiiiiiilhooo! Meu amoooorrrrr! Vou lhe mostrar uma jóia com o meu feitio.
Revirou a bolsa até que encontrou a pulseira toda de ouro, com 24 pendentes em formatos de coração.
- Veja!! Não é um show essa pulseira? Eu que desenhei. São 24 pendentes de coração. Há 24 anos estou casada com o Nildo.
E com a ponta dos dedos polegar e indicador, os demais dedos levantados, colocou de volta os óculos na altura dos olhos. Solicitei a documentação e comecei a avaliar o show da pulseira.
- Viste o meu sobrenome? Só tem duas famílias em toda América Latina com esse sobrenome. A minha e uma família em Buenos Aires. Como é o destino das pessoas... duas famílias... e eu caio na brasileira! Podia estar no Café Tortoni, no Teatro Colón, Recoleta, Caminito... El Ateneo, mas não! Estou aqui no penhores. Até o túmulo da Evita é mais interessante que essa cidade.
Ela falava... falava... e eu parava de avaliar para anotar as frases da madame, pois a mulher era uma crônica em estado de êxtase, como havia pressentido. É evidente que errei a avaliação. Coloquei o valor da avaliação de R$ 1.800,00 no peso e tive que refazer o contrato. E ela, com todos os seus predicados, mandando verbo.
- Tragédia!! Claro que a gente tem pena. Quantas pessoas estão chorando a morte de amigos e parentes. A gente sente a morte de bichinhos de estimação, como não vamos ficar comovidos com essa tragédia com o avião.
E achei que ela iria desandar num pranto...
- Mas tragédia para mim e a fila do SUS. O senhor não acha? Ontem a minha empregada...
No momento em que ia fazer o teste na pedra de toque.
- Nãããããõoooo!!! O senhor não vai raspar a minha jóia. Ela é um show...
Não raspei.
Então. Ela olhando o carrinho em miniatura que um guri havia esquecido em cima do guichê.
- Para que serve esse carrinho?
Eu tentei responder que um gu... ri... zi...
- Eu adoro carros. Tem um Karmanguia vermelho na cidade que é um show. Um show. Um show. Um shoooooowwwww. Não sei quem é o dono, mas eu fico suspirando quando ele passa. Meu marido tem uma camioneta importada, mas eu gosto mesmo é de Karmanguia vermelho.
... ele es... que... ceu.
- Eu adoro carro antigo. Adoro tudo que é antigo. Coisa velha é comigo mesmo. Acho que é por isso que eu casei com o Evanildo. Sabe, o Nildo vai fazer 87 anos. Tem uma diferença entre nós de quase 50 anos. Mas o Nildo é espada. E é show também. O Nildo é uma jóia.
- Pronto a senhora vai levar R$ 1.390,00.
- Óóóótimooo!! Óóóótimooo!! Óóóótimooo!! Meu fiiiiiilhooo!! E agora eu vou para os outros bancos pagar os boletos das minhas jóias. Tudo Shopping Brasil e Medalhão Persa.
Levantou-se, girou 360° agora no sentido horário, num imaginário eixo de rotação, com os dedos polegar e indicador, os demais levantados, baixou os óculos até a ponta do nariz.
- Tchau meu fiiiiilhoo!! Meu queridiiiinho!!
Girou mais 180° e se foi com o nariz empinado, um esquilo enrolado no pescoço e um cachorro à tira-colo.
E eu fiquei anotando mentalmente as frases que havia perdido e imaginando por onde começar a procura em caso de diferença de caixa no final do dia.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A canetinha rosa do guasca *

A Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos ocorreu entre os anos de 1835 e 1845 por essas bandas do sul do Brasil. Naquela década sangrenta os gaúchos se rebelaram contra o Império. Num audacioso 20 de setembro deram início a revolução, num 11 de setembro proclamaram a República Rio-grandense e num mormacento fevereiro, 10 anos após, assinaram a paz de Ponche Verde nas planuras de Dom Pedrito.
Então, em todos os meses de setembro os gaúchos resgatam lembranças da epopéia farroupilha. Heróis farrapos como Bento, Netto, Garibaldi, Anita, Canabarro e tantos outros são reverenciados em músicas e versos nos galpões, nos CTG’s, nas escolas, enfim, nos rincões do Rio Grande por onde sopra o Minuano ou onde estiver um gaúcho em qualquer parte dos quatro cantos do mundo.
Os jornais estampam reportagens sobre os revolucionários de 35 e no dia 20 ocorre o desfile da gauchada orgulhosa de seus antepassados que são lembrados como os centauros dos pampas. Os garbosos cavalos batem cascos e cagam pelas avenidas afora. Que mal faz o cheirinho de uma verdejante bosta diante da importância da manifestação tradicionalista?
Nas repartições públicas, bancos, lojas e nas entidades civis os funcionários trabalham pilchados. Os novos centauros dos gabinetes e escritórios ostentam a campeira indumentária. Alguns, ainda mais orgulhosos, exibem certificados de sua farrapa descendência. Até o “tchê” é precedido de um carregado “mas bah!” para autenticar a momentânea, mas acintosa grossura guasca-pampeana.
Dirijo-me a uma instituição bancária para assinar um contrato de empréstimo pessoal. O funcionário, alegre e muito gentil, começa o atendimento. Estava trajado a rigor para a semana festiva em questão. Calçava botas com chilenas prateadas, usava uma bombacha preta, uma camisa branca e um lenço vermelho ao pescoço que identificava sua tradição de maragato ou um fanatismo gaudério pelo Internacional e uma guaiaca comprada lá no Uruguai. Um chapéu às costas, preso pelo barbicacho, era um detalhe especial.
- Buenas tardes! - cumprimentou-me com um genuíno jeitão missioneiro.
- Buenas... – respondi com um jeitão, também missioneiro, de quem nasceu em Santiago do Boqueirão.
Casualidade ou não, mas o gaudério ali em minha frente, possuía um volumoso bigode de causar inveja ao Paixão Cortes.
Antes de assinar o contrato, solicitei ao escriturário guasca para mostrar-me a data do vencimento. O gaúcho com aquele baita lenço e escondido atrás do bigodão, saca a sua poderosa adaga farrapa: uma caneta. Ou melhor, um salientador, e faz uma marca fosforescente rosa no meu contrato, indicando a data.
A mim pareceu meio esquisito e contraditório. Um “gaúcho-dos-quatro-costados”, falquejado no lombo dos baguais, com uma canetinha rosa-shocking para salientar contratos.
Não pude deixar de brincar com o vivente.
- Tchê louco! De bombacha... mas com canetinha rosa. - deixei a frase no ar.
Tasquei minha assinatura no papel enquanto o bombachudo rodopiava a canetinha rosa entre os dedos, pensativo.

* Crônica classificada no 13º História do Trabalho 2006.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

O penhor das latinhas


Uma sexta-feira tranqüila com a perspectiva de um vasto e ensolarado final de semana prolongado com o feriado na segunda-feira.
A última cliente do dia era uma senhora, aparentava ter mais de 80 anos. Baixinha, curvada e tinha o cabelo cuidadosamente bem arrumado, com um preto intenso e uma maquiagem exagerada. Usava na lapela de seu casaco um camafeu. Com a maior calma do mundo, e lentamente, dirigiu-se ao meu guichê. Portava três ou quatro volumosas sacolas plásticas de mercado e uma bolsa com a estampa de uma zebra.
Eu já estava com o pensamento na caipirinha de vodka após o expediente no “Ponto de Cinema”. Tamborilava e assoviava a música de Bob Dylan “Blowin’ In The Wind”.
Sentou-se em minha frente e começou a falar. Disse que precisava penhorar umas “coisinhas”, mas antes precisava me contar uma história. Com uma voz compassada que mal conseguia ouvir, começou sua narrativa.
- Meu marido morreu, há dois meses, com 99 anos. Que Deus o tenha! Mas, coitado, tava um caquinho. E ele queria chegar aos cento e doiiiissssssssssssssssssssssss. - e foi baixando a cabeça e eu pensei que ela estivesse esvaziando.
- Mas ele viveu bastante... aproveitou a vida. – acrescentei.
- Aproveitou até demais aquele sem-vergonha. – levantando-se abruptamente. E continuou. - Velho safado. O senhor não imagina o que o Arnaldo aprontou em vida. Sinto pena do diabo... pois é claro que ele está no inferno.
De repente ficou em silêncio. Baixou a cabeça, novamente, e quase sumiu do meu campo de visão.
- Mas como é mesmo que seu marido morreu? – perguntei.
- Vinte e um tiros. – acordando do seu breve repouso.
- O seu marido levou vinte e um tiros...
- Ele era tenente-coronel. Lutou na 2a Grande Guerra. Teve honras militares e foi saudado com vinte e um tiros pelos soldados do Exército. O velório foi muito bonito. Nem merecia aquele desgraçado. Enfim, que o demônio o tenha. Por mim, que queime nas labaredas profundas do inferno.
- É, mas foi uma bela homenagem.
- E sabe o que ele me deixou? Uma porcaria de uma pensão e uma sobrinha meio lelé. Sabe... problemas. – e apontava com o dedo indicador para a própria cabeça. – E como eu rezei para aquele infeliz ir embora. Foi, e foi tarde, e me deixou com uma louca varrida. Aí que eu queria chegar moço. Aquela doida quer que eu faça o penhor dessas coisas aqui. Ela quer comprar um vestido de noiva com o dinheiro desse penhor.
Colocou sobre o guichê, três sacos plásticos com latinhas vazias de cervejas para serem penhoradas na Caixa. Pasmo, eu fiquei sem o que dizer. Ela continuou.
- Eu sei que a Caixa não penhora latas, mas eu não posso contrariar a Deoclécia. Ela me obrigou a trazer as latas para vocês avaliarem. Aquela mulher é louca, ela bate em mim.
Lembrei-me daquela gostosa do Big Brother que dizia “ninguém merece”. E ainda por cima no final de uma sexta-feira véspera de feriadão. Como é que essa mulher passou pela porta giratória? E só latas de cerveja, nenhuma coca diet. Mas essa “véia” bebe! – pensei cá com os meus botões.
- Moço, eu quero que o senhor escreva isso num papel. – falou mais pausadamente que o normal. – “A Caixa não faz penhor de latas”. E assine e ponha o seu carimbo. Eu levo para ela, senão ela é capaz de me bater. Sabe! Ela tem a mão pesada.
Então escrevi.
“A Caixa Federal não faz penhor de latas de cerveja. Somente aceitamos jóias de ouro”. Assinei e coloquei meu carimbo.
- Tem que ter o carimbo da Caixa. Moço! Aqui não tem o carimbo da Caixa...
Peguei o carimbo de cruzamento de cheques e coloquei logo abaixo do meu.
- Pronto.
- Agora sim. Bom final de semana, moço.
E se foi curvadinha. Lentamente, arrastando os sacos com as latas vazias.
Ninguém merece...

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Agente funerário

Parte I – Caixa Econômica Federal
Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Não lembro direito, mas era uma sexta-feira 13 de um agosto sem graça.
De repente, como por encanto, a tarde de Santa Maria tornou-se escura, nuvens negras fecharam o tempo e relâmpagos e trovadas alvorotaram os passantes. Correrias e passadas largas agitavam o Calçadão e a praça Saldanha Marinho.
Do alto do prédio da Caixa observamos as luzes do centro anunciando a noite que chegara mais cedo. Alguém comentou em adicional noturno, mas não dei muita importância.
O recinto do penhor estava vazio. Estou absorto lendo os editoriais do Conta Corrente quando um ser, que tinha todas as feições de um terráqueo, simplesmente surgiu diante de meu guichê.
- Boa noooooite! – falou com uma voz meio barítona, meio metálica.
- Boa... tarde. – respondi refazendo-me do susto.
Sinistro e misterioso o cidadão postava-se em minha frente. Usava um chapéu e luvas pretas e uma capa estilo Matrix. Ele não sorriu, mas eu percebi um brilho de metal nobre nos caninos.
Os instantes que antecederam a confecção do contrato de penhor foram travados com perguntas minhas e respostas monossilábicas ou com apenas uma única palavra do misterioso mutuário.
- Seus documentos por gentileza.
- Sim.
- Seu comprovante de residência.
- Não.
Mesmo assim resolvi fazer o seu cadastro. Estava curioso para ver o tipo de jóias.
- Sua profissão?
- Agente...
- De polícia?
- Funerááário.
- Agente funerário. – repliquei baixinho.
- Funeráááááário. - aquele vozeirão retumbou no recinto.
Não sei se foi impressão minha, mas o segundo funerário tinha o dobro de “a” do primeiro.
- Endereço? – também comecei a economizar as palavras.
- Bozano.
- Número?
- Meia, meia, meia.
- Apartamento?
- Meia, meia.
- Cidade?
- Santa. – para quem não sabe: Santa Maria.
- O senhor trouxe as jóias?
- Trouxe.
Ficamos por alguns segundos sem falar. Eu esperando as jóias e ele, certamente, esperando mais uma pergunta. Mas essa eu iria ganhar. Não perguntei pelas jóias. Fiquei aguardando. Olhando para ele com uma cara de taxo.
- Ah! – botou a mão no bolso e tirou um saquinho.
Despejou sobre o guichê 24 caveirinhas de ouro com dois diamantes de 15 pontos nos olhos.
Então, comecei a pesar e medir os diamantes. Quando fui explicar o valor a ser recebido ele falou.
- A cruuuz. – novamente, falou com uma voz meio barítona, meio metálica.
Eu havia esquecido uma cruz de ouro branco cravejada com esmeraldas.
- A cruz. – sussurrei.
- A cruuuuuuz.
Não sei se foi impressão minha, mas, novamente, a segunda cruz tinha o dobro de “u” da primeira.
Quando fui dizer o quanto levaria pelas caveiras e pela cruz ele argumentou.
- O morceeeeego. – com aquela voz de causar arrepio na espinha.
E, novamente, eu havia esquecido um raio dum morcego de ouro com olhos de rubi. Esse cara está de brincadeira comigo. As jóias, simplesmente, apareciam no balcão.
Antes de falar o valor verifiquei se não havia nada em cima do guichê para ser avaliado.
- O senhor vai depositar o dinheiro?
- Não. Vou levar para o Banco do Brasil. – essa foi a única frase dita pelo cidadão.
Entreguei o dinheiro. E o misterioso mutuário saiu lentamente. De repente virou-se e disse. – Boa nooooooite.
Nesse momento um estrondo de um trovão iluminou a praça e, imediatamente, uma chuvarada inundou o centro da cidade.


Parte II – Banco do Brasil
Raul Giovani Cezar Maxwell

Estava preparando-me para ir embora, estava no final do expediente externo quando olhei para fora, no exato momento em que ribombavam trovões no céu de Santa Maria. As nuvens trouxeram uma escuridão noturna quando estava apenas próximo às 16 horas. Olhei meu relógio procurando os ponteiros encostados no doze e no quatro, mas incrivelmente eles estavam ambos sobre o 12. Achei estranho. Algo mais estranho ainda estava por vir. Uma criatura estranha. A porta pareceu girar sem que ele a tocasse.
Sinistro e misterioso o cidadão postava-se em minha frente. Usava um chapéu e luvas pretas e uma capa estilo Matrix. Ele não sorriu, mas eu percebi um brilho de metal nobre nos caninos.
Olhei para os colegas, mas eles não pareciam ver o que eu via. É o treze, pensei, de agosto, sexta-feira. O cheiro de esgoto, que eu sentia, devia ser da enxurrada lá fora.
Então ele falou, lúgubre, com um hálito próximo a dois Cadenas:
- Boa Noooooooite!
- Boa - respondi idêntico julgando ser de brincadeira, apesar do calafrio provocado pelas vogais sibiladas e repetidas.
- Em que posso ajudá-lo? – eu ouvia o eco de nossas vozes devido ao silêncio sepulcral do restante da agência.
- Queeeerooo liiiiquidaaaar... - começou ele enquanto eu sentia latejar minha jugular.
Passei a mão no pescoço por instinto ao perceber os dentes pontiagudos e amarelados.
- Liquidar...?
- Um CeDeeeeCeeee – terminou consoante a minha frente
Não falei, mas pensei. Em seu caso CDC seria Caixão de Defunto Consignado. Sorri por dentro. Apesar de tudo não perderia a piada.
- Número da conta, por favor, e seu nome... – pedi.
- 66.666-6 Vlaaaad Karloooof – a voz parecia sair direto da garganta sem passar pela boca.
Calculei a dívida e me arrepiei novamente. Mais meia dúzia de seis.
Ele não esboçava reação.
- Por favor, o senhor pode ir depositar o valor no caixão. - falei rapidamente.
Percebi o ato falho e corrigi logo
-... No caixa.
Fiquei observando o seu deslocamento. Nada aparecia sob a capa longa que cobria todo seu corpo, aparentemente magro e ossudo, parecia flutuar. Fechei os olhos e os esfreguei para ver se não era um sonho. Quando os abri novamente ele já estava ali a minha frente de novo. Meu sangue gelou em todo meu corpo, menos na jugular. Ali, parecia ferver.
Ele me fitava e parecia agradecer o atendimento, quando tive uma idéia repentina.
- Posso tirar uma foto do senhor? Antes que ele respondesse puxei a máquina da gaveta e apertei o disparador. O flash se confundiu com o relâmpago na rua. Ele girou rápido como a se proteger do clarão, puxou a capa sobre os olhos e num átimo já estava na escuridão, sumindo por entre a locomotiva e a biblioteca. Outro piscar de olhos e a chuva parou e o dia voltou ao seu lugar.
O medo que me restou era que, ao revelar o filme, se revelasse que tudo não passou de uma ilusão de ótica, fruto do estresse de um final de sexta-feira. Treze de Agosto. Hoje, de estranho, apenas duas manchinhas roxas em meu pescoço.
A foto? A foto foi utilizada na campanha salarial 2007.