sábado, 9 de agosto de 2014

O cão francês



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

O ambiente do penhor estava lotado – tinha gente saindo pelo Demostenes ou pelo Dirceu, como queiram –, mas duas velhinhas aparentando 70 anos com rostinhos de 67 se destacavam no meio da plateia pela indumentária que usavam. Ambas vestiam um preto total, muito além do básico, de alto a baixo. O que as diferenciava era a cor do lencinho ao pescoço. Uma usava lenço amarelo e a outra, vermelho.
O espaço destinado ao penhor estava lotado e o sistema de senhas fora do ar: penhor e Lei de Murphy, tudo a ver!
Toda vez que eu gritava a próxima senha, torcia para que as duas velhotas viessem ao meu guichê. Certamente, aquele atendimento iria render. Isso era óbvio. Previsível. Quando chamei a senha 51, as duas senhoras levantaram e eu imaginei que deveria ter sido uma boa ideia. Ao se aproximarem, percebi que uma delas trazia um cãozinho no colo, justamente a senhora do lencinho vermelho. Um cusquinho inquieto, mas silencioso. Antes de eu perguntar o que fazia com um cachorro dentro de uma agência bancaria ela falou.
– É o meu cão-guia. Eu digo que é meu cão-guia para poder entrar nos bancos.
– Ela não é cega e o cusco não é cão-guia. Jeitinho brasileiro, o senhor conhece – falou a do lencinho amarelo.
– Fecha essa matraca Maria Rosa! Ele é meu companheirinho e, além do mais, o Osvaldinho é um cão francês.
– O pulguento francês é viralatô. Mas se escreve viralateau.
Percebi que o clima entre as irmãs gêmeas era de rabugice mútua. O cusco pulou para cima do guichê e vi que usava uma coleira vermelha. O cusco era preto com patinhas marrons. A coleira combinava com o lenço da dona.
– E a senhora também não tem um cachorrinho? – perguntei a outra, assim, do nada.
– Não, eu tenho uma gatinha. Uma amiga me trouxe de Goiás.
– E ela usa uma coleirinha amarela – falei.
– Como é que o senhor adivinhou?
Não respondi, lógico.
Então, a Rosa Maria – uma chamava Rosa Maria e a outra Maria Rosa – acabou com aquela ladainha de cusco francês e gatinha goiana e outras baboseiras e colocou uma montanha de anéis, brincos, colares e pulseiras em cima do guichê.
– É tudo ouro 32, quanto que a Caixa paga por eles?
A velhota me pegou no contrapé com a história de ouro 32. E falei simplesmente que não existia ouro 32. No máximo ouro 24 e só em barra. As joias são ouro 18...
– Como não! As minhas joias são tudo ouro 32.
– Mas... – e o cusco rosnou num francês que não entendi, mas o recado estava dado.
Avaliei as joias e preenchi o contrato. E elas saíram resmungando uma com a outra.
– Tu é muito grossa! Se o moço falou que não existe ouro 32 é porque não existe.
– Sabe nada esse pirralho da Caixa. E vamos logo que o Osvaldinho quer passear no parque.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O anel da tia Mercedes



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

A jovem mulher me alcançou um anel de ouro branco cravejado com trinta e três diamantes e um solitário de 40 pontos no centro. Um brilhante classificado como OP P1 (para os leigos: péssima qualidade). Não disse que era uma porcaria em respeito a cliente. Ela queria saber se era ouro e diamantes e avaliação de penhor, pois ganhara de uma tia uruguaia que mora na cidade de Melo.
Os tios uruguaios estavam casados há mais de trinta anos. Não tiveram filhos e tinham uma vida pacata numa pacata cidade do Uruguai. A mesma cidade em que o Papa visitou e que originou o filme “Banheiro do Papa”. Pablo e Mercedes viviam na mansidão do pampa uruguaio. Mas em um belo dia Melo a coisa melou, Mercedes descobriu o que jamais supunha. Pablo tinha uma amante. Sua vizinha e melhor amiga, Maria Juana, confidente há mais de vinte anos, era a amante do Pablo. O povoado de Melo ficou em polvorosa com a traição de Pablo – um respeitado cidadão – a uma das senhoras mais elegante da cidade e de uma tradicional família. Mercedes entrou em depressão e não queria mais sair de casa. E não conversava mais com o velho Pablo. Numa viagem a Montevidéu, Pablo achou um anel de brilhantes numa vitrine e enxergou no anel a oportunidade de reconciliação. A peça tinha “treinta y tres” brilhantes e um solitário de 40 pontos. Então, o velho Pablo trouxe o presente para a Mercedes. A tia Mercedes reatou o casamento, mas nunca usou o anel.
Na última visita que a jovem mulher – Rita de Cassia – fez à tia no Uruguai, ganhou o anel de presente. O anel da traição de Pablo. Rita de Cassia também não quis usar porque achava que trazia maus fluidos. Por isso estava colocando no prego... opa, penhor.
Nesse meio tempo – o da história da tia Mercedes – eu fiz a avaliação. Como o meu bisavô é uruguaio também fiquei imaginando uma herançazinha vinda lá dos lados de Bella Union. Um anelzinho com um solitário de dois quilates já ajudava. Um pedaço do drama da tia Mercedes eu não ouvi, acho que foi a parte que o velho foge com a amante para Tacuarembó. Acho que ouvi alguma coisa como velha idiota...
Então, falei que ela levaria R$ 743,19 pelo anel a moça virou bicho.
– Esse anel vale oito mil dólares. O tio Pablo comprou em Montevidéu, para se reconciliar com a tia... são dez anos de traição que o anel reconciliou.
– Tudo bem, mas a gente não avalia traição, nós avaliamos ouro e diamantes. E, além do mais, traiu a mulher durante dez anos e queria se reconciliar com uma porcaria dessas de 40 pontos... no mínimo um quilate. Malandro e sovina esse tio Pablo.
A jovem mulher pegou o anel de minha mão e saiu indignada comigo, mas ela deveria estar indignada com o tio Pablo.
Ah! Vá catar coquinhos no Uruguai. Paciência tem limite.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Apolinário Ernesto Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Consta que uma senhora moradora do Havaí tem problemas com seus documentos por conta da extensão do nome. A dona Janice Lokelani Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele tem um nome muito extenso para constar num documento, a sua carteira tem espaço somente para o impronunciável Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele sobrenome que adquiriu quando se mudou para a ilha e casou com um nativo. Parece que o nativo se chamava José da Silva Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele.
O problema é que na carteira de motorista tem espaço para 34 caracteres, assim não constam os primeiros nomes e somente o sobrenome com uma letra a menos. Ao invés de Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele fica somente Keihanaikukauakahihuliheekahaunael. Perceberam a diferença? E um guardinha de trânsito, astuto, resolver encrencar com a moça e essa encrenca virou notícia na rede.
Bueno, como dizia o índio lá de fora antes de começar um causo. Mas o fato é que a senhora Janice Lokelani Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele tem um cunhado e esse cunhado mora em Santa Maria. E, claro, tinha umas joias importadas de Miami e acabaram nos penhores da Caixa.
Foi num final de uma dessas greves de calendário. No primeiro dia de retorno um cidadão, acompanhado de duas crianças, chegou com uma dúzia de moedas de ouro. Dólares americanos. Coisa rara no penhor. Mas encaramos a tarefa. Então, o senhor bronzeado e melenudo Apolinário Ernesto Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele, acompanhado de duas crianças bronzeadas e melunadas, me alcançou seu documento. E eu pensava que tinha nome grande...
Evidentemente, não me atrevi a pronunciar seu sobrenome e “dedografei” letra por letra para o cadastro e encerrei a operação. Mas aquele nome ficou matutando em meu pensamento. Como é que se pronuncia esse troço? Perguntei e o seu Apolinário sorriu e falou que se eu não perguntasse a pronúncia do nome seria o primeiro desde que chegou a Santa Maria. Pois eu contei até dez antes de perguntar. Ele falou em alto e bom som, duas vezes, mas pouco adiantou. No entanto, a minha curiosidade era outra. Eu gostaria de ver os documentos das crianças. São seus filhos?
Então o seu Apolinário me alcançou a identidade dos filhos.
João Völkerwanderung Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele e Joana Völkerwanderung Keihanaikukauakahihuliheekahaunaele. Diante da minha cara de espanto falou.
– Casei com uma alemã.
E saiu contando as inúmeras notas de cem reais, pouco preocupado se tinha alguém observando.
Coitado do mestre de cerimônias na formatura dos pirralhos... fiquei imaginando.

domingo, 12 de maio de 2013

As pernas brancas da coroa



Athos Ronaldo Miralha da Cunha

Os bancos têm um excelente sistema de informatização. Mas quando não funciona, o transtorno é grande.
Era uma sexta-feira de um agradável maio em uma movimentada feira do livro. Cheguei por volta das 10:30h e o cartaz na porta de entrada era o mesmo do dia anterior: “sistema fora do ar”.
– Não sei se vai cumprir, mas o dia promete! – entrei na agência.
15 horas.
Já havia feito um curso na Universidade Caixa, arquivado uns contratos liquidados, feito uma limpeza geral nas gavetas – os dias em off são propícios a tais limpezas – e a agência “Mortinha da Silva”, totalmente paralisada. O sistema ainda não tinha dado o ar da graça. Por certo, estava prolongando o final de semana.
Como sempre carrego um livro, aproveitei o tempo e comecei a leitura de “69/2 Contos Eróticos” uma coletânea de 2006 da editora Leitura.
Lendo os contos eróticos e o sistema não entrava. Li 57 páginas. (Eu pensei em colocar que li 24 ou 69 páginas – números de páginas mais condizentes com um livro erótico –, mas seria lugar-comum).
– É aqui o penhor? – uma senhora grita da porta do elevador, interrompendo minha leitura.
– É – assenti com a cabeça. – Se a agência está fechada como essa louca entrou? – falei baixinho.
Ela se aproximou. Uma coroa... bem coroa, mas com tudo em cima. Ou melhor, quase tudo em cima.  Deveria ter sido uma loiraça de parar a rua do Acampamento quando ainda não havia o Buraco do Behr. Usava um vestidinho justo e extremamente preto que deixava à mostra suas belas pernas extremamente brancas. Tudo bem, não eram tão belas as pernas extremamente brancas. Portava todas as espécies de joias constante nas descrições do Sipen – Sistema do penhor –, anéis, brincos, colares, pulseiras, pendentes, mas não havia uma aliança no dedo. Eu não vi, mas acho que pela estampa deveria ter tornozeleiras e piercing no umbigo. O motivo de estar no setor do penhor num dia que a agência estava fora do ar era, justamente, a aliança e ela ser cliente do empresarial...
– Me divorciei e gostaria de penhorar essa maldita.
A aliança pesava exatos 1,2g. O que vou dizer para uma perua que está em minha frente com meio quilo de ouro no corpo e me alcança uma aliança de 1,2g? O óbvio.
– Não dá penhor – e me lembrei do Idevanio, EMNDP [*].
– Vou te contar a história dessa aliança – como se eu estivesse interessado.
E eu estava interessadíssimo. Imagina! Uma sexta-feira com sistema inoperante e faltando poucos minutos para encerrar o expediente. Tudo o que eu queria saber era a história da aliança de uma extrovertida coroa com as pernas à mostra. Mas ela contou a história da aliança, o noivado, casamento, lua de mel, 13 anos de casório e o divórcio. E eu só balançando a cabeça em sinal de afirmação. Concordando com o rosário da perua e louco para voltar a ler o livrinho de contos eróticos.
Quando eu respondi pela quarta vez que a aliança não dava penhor ela levantou abruptamente e saiu, com expressivo rebolado, do recinto do penhor.
Volto para o livro, mas aí já estava na hora de fechar o caixa. E ir tomar um cappuccino no Café Cultura da feira.
Estou absorto folheando o livro “A razão dos amantes” do chileno Pablo Simonetti, quando sou surpreendido na mesa ao lado por umas pernas extremamente brancas de uma coroa. E ela folheava “69/2 Contos Eróticos”.


[*] Esta merda não dá penhor.