Athos
Ronaldo Miralha da Cunha
Os
bancos têm um excelente sistema de informatização. Mas quando não funciona, o
transtorno é grande.
Era
uma sexta-feira de um agradável maio em uma movimentada feira do livro. Cheguei
por volta das 10:30h e o cartaz na porta de entrada era o mesmo do dia
anterior: “sistema fora do ar”.
– Não
sei se vai cumprir, mas o dia promete! – entrei na agência.
15
horas.
Já
havia feito um curso na Universidade Caixa, arquivado uns contratos liquidados,
feito uma limpeza geral nas gavetas – os dias em off são propícios a tais
limpezas – e a agência “Mortinha da Silva”, totalmente paralisada. O sistema
ainda não tinha dado o ar da graça. Por certo, estava prolongando o final de
semana.
Como
sempre carrego um livro, aproveitei o tempo e comecei a leitura de “69/2 Contos
Eróticos” uma coletânea de 2006 da editora Leitura.
Lendo
os contos eróticos e o sistema não entrava. Li 57 páginas. (Eu pensei em
colocar que li 24 ou 69 páginas – números de páginas mais condizentes com um
livro erótico –, mas seria lugar-comum).
– É
aqui o penhor? – uma senhora grita da porta do elevador, interrompendo minha
leitura.
– É –
assenti com a cabeça. – Se a agência está fechada como essa louca entrou? –
falei baixinho.
Ela se
aproximou. Uma coroa... bem coroa, mas com tudo em cima. Ou melhor, quase tudo
em cima. Deveria ter sido uma loiraça de
parar a rua do Acampamento quando ainda não havia o Buraco do Behr. Usava um
vestidinho justo e extremamente preto que deixava à mostra suas belas pernas
extremamente brancas. Tudo bem, não eram tão belas as pernas extremamente
brancas. Portava todas as espécies de joias constante nas descrições do Sipen –
Sistema do penhor –, anéis, brincos, colares, pulseiras, pendentes, mas não
havia uma aliança no dedo. Eu não vi, mas acho que pela estampa deveria ter
tornozeleiras e piercing no umbigo. O motivo de estar no setor do penhor num
dia que a agência estava fora do ar era, justamente, a aliança e ela ser
cliente do empresarial...
– Me
divorciei e gostaria de penhorar essa maldita.
A
aliança pesava exatos 1,2g. O que vou dizer para uma perua que está em minha
frente com meio quilo de ouro no corpo e me alcança uma aliança de 1,2g? O
óbvio.
– Não
dá penhor – e me lembrei do Idevanio, EMNDP [*].
– Vou
te contar a história dessa aliança – como se eu estivesse interessado.
E eu
estava interessadíssimo. Imagina! Uma sexta-feira com sistema inoperante e faltando
poucos minutos para encerrar o expediente. Tudo o que eu queria saber era a
história da aliança de uma extrovertida coroa com as pernas à mostra. Mas ela contou
a história da aliança, o noivado, casamento, lua de mel, 13 anos de casório e o
divórcio. E eu só balançando a cabeça em sinal de afirmação. Concordando com o
rosário da perua e louco para voltar a ler o livrinho de contos eróticos.
Quando
eu respondi pela quarta vez que a aliança não dava penhor ela levantou
abruptamente e saiu, com expressivo rebolado, do recinto do penhor.
Volto
para o livro, mas aí já estava na hora de fechar o caixa. E ir tomar um
cappuccino no Café Cultura da feira.
Estou
absorto folheando o livro “A razão dos amantes” do chileno Pablo Simonetti, quando
sou surpreendido na mesa ao lado por umas pernas extremamente brancas de uma coroa.
E ela folheava “69/2 Contos Eróticos”.
[*]
Esta merda não dá penhor.